Não escrita

Por algum tempo fiquei me questionando sobre o silêncio dos últimos anos na minha escrita. Essa questão nunca recebeu uma resposta satisfatória. Ela existe e se faz constante porque escrevo quase que instintivamente desde adolescente mesmo sem saber escrever direito e sem querer escrever por algum motivo maior. Mas já faz alguns anos que não tenho feito mais do que escritas burocráticas, pagas, exigidas em troca de dinheiro. O que mudou?
Já acreditei ser um sintoma da maturidade essa falta de letras. Também pensei que era falta de tempo, falta de um lugar apropriado para escrever, falta de dinheiro. Inventei desculpas. Pensei que já não tinha o que falar. E isso ainda me angustia. Talvez eu não tenha mais nada pra falar mesmo. Ou nenhum assunto que eu já não saiba da existência de alguém que falaria muito melhor ou com mais propriedade. Talvez escrever seja ter essa coragem de falar algo mesmo sabendo que outros falam e falariam muito melhor. Não sei.
Talvez o que mais me preocupe nesse não escrever seja o medo na hora de juntar palavras. O medo do outro. E principalmente, outro grande motivo de angústia, o fato de ainda não saber por que penso as coisas que penso. Tive um professor que mesmo cansado de falar com adolescentes desinteressados uma vez disse que pensar criticamente era sempre questionar e tentar entender por que pensamos da maneira como pensamos. Não é uma questão simples com uma resposta óbvia: sou fruto deste momento histórico. Mas também é. Talvez seja algo contido nesse individualismo extremado que me inquiete no sentido de já não conseguir escrever por não poder responder essa pergunta.
Penso como penso porque sou branca em um país extremamente racista. Penso como penso porque fui pobre em um país extremamente desigual. Penso como penso porque fui filha de imigrante. Penso como penso porque migrei quando criança e voltei a migrar. Penso como penso porque a fronteira sempre foi um bom destino pra mim. Penso como penso porque nunca fui a menina mais menina que se esperava. Penso como penso porque expresso minha sexualidade. Penso como penso porque sou mulher num mundo absurdamente machista. Penso como penso porque tive oportunidades educativas. Penso como penso porque sou filha dos meus pais. Penso como penso porque circulo por onde circulo. Penso como penso porque tenho ideologias. Penso como penso porque sou fruto deste momento histórico.
Mas essa análise pouco profunda é suficiente? Em tempos de muros nos faltam palavras. Uma jornalista que admiro escreveu sobre isso. Ainda estamos sem palavras para nomear o que nos passa neste momento histórico. Talvez seja isso que me corte a escrita, esse muro colocado que me impossibilita o feliz encontro com as fronteiras, com as letras, com os outros.
De qualquer forma eu sinto falta e só consegui escrever sobre como ainda não sou capaz de escrever.

Endeusar o futuro

Não sei em que espelho encontro meu reflexo. Os rostos mais velhos que vejo nas ruas não me dizem nada. Talvez digam tudo. Já não leio. Não tenho tempo pra ler, não tenho paciência. Passo para a próxima música, não deixo chegar nos últimos acordes. A outra música, a que virá, pode ser melhor. Nunca é. Eu sei quais músicas tenho na biblioteca virtual. O metrô vai rápido e são muitos os reflexos que encontro ali. Caras e mais caras desconhecidas. Ainda não reconheci o mesmo rosto, me falta rotina para esse tipo de detalhe. Na última noite encontrei essa senhora, não sei se posso chamar de senhora, não parecia tão velha, só tinha os cabelos grisalhos, curtos. Um rosto decidido, resolvido, maduro e sensível. Era séria sem ser solene, era militante de esquerda pelas roupas e companhias, dia de manifestação. Sentava com as pernas cruzadas, os olhos marcados, não sei se por maquiagem ou por natureza. Era bela. Encarei por um tempo esse rosto tão forte e me imaginei como desenho de seu passado. Ela me encarou também, reparou em minha bolsa, em meu broche, em meu sapato. Um reparar sem julgar exatamente, uma curiosidade, talvez a mesma que senti ao vê-la sentada em minha frente. Não sei seu nome, é provável que nunca mais a veja. Mas vi em seu rosto um reflexo de algo que não consigo imaginar ser. Isso foi diferente. Isso foi bom.
É importante não endeusar os mais velhos. É importante não endeusar os mais novos. Endeusar talvez seja uma das coisas mais violentas que se pode fazer. Não há deus, menos endeusamentos. Vamos flutuando, errando, se quebrando em mil pedaços e depois voltando a pulsar.

Cordão umbilical

Ela me disse que sabia como era difícil cortar o cordão umbilical. “É doloroso”. Ela disse isso me contando suas histórias de passado. Eu escutei sem entender. Não pensava que alguém ainda sentia essa dor lá pelos quarenta. Achava, ignorante, que isso se corta no parir. Acontece que uma metáfora não deixa de ser menos real, ou sentida, por ser metafórica. Até aqueles vinte e poucos evitei olhar para meu próprio umbigo, achando que era coisa de narciso, coisa de maluco. O pior foi perceber que o tal cordão não apenas permanecia forte, mas que me envolvia por completo, tal qual cobra amazônica. Gigantesca conexão invisível. Eu me alimento dela que se alimenta de mim.
Ela me perguntou se eu não achava doloroso cortar o cordão umbilical. Eu ri dessa pergunta. Como assim cortar? É coisa de médico fazer isso. Não pensei, infantil, que eu precisaria tomar qualquer atitude. Acreditava que a vida se encarregava disso, que distâncias, que relações, que caminhos e decisões. Não lembrava o principal, o que me compõe, o que me faz existir: palavras.
Em casa nunca fomos de usá-las para olhar umbigos. Elas eram exploradas para discutir futuros, mundos, conjunturas. Nunca para si. Apenas para se. Improváveis sonhos, longínquos planos, distantes geografias. O que é próximo dói. Melhor olhar lá, horizonte imenso. Nunca pensei que palavras serviam como armas para cortar o que nascia com a gente. Ainda mais tarde percebi que não apenas as palavras precisariam ser usadas, mas que uma escuta se faria necessária.

Por favor

Ela disse por favor. Por Favor. Por Favor! Era sua única arma. Ele atacava com facas, com braços, com força. Ela dizia por favor. Por favor. Por favor. Dizia porque sempre fora escutada quando dizia por favor. Foram essas palavras mágicas que abriram todas as portas até hoje. Por favor e todos faziam silêncio. Por favor e as portas se abriam. Por favor e todos os problemas poderiam ser resolvidos.
Naquela rua. Voltando para casa. Tarde porque as horas se perderam. Por favor ela gritava. Por favor. Nenhuma reação. O rosto do homem não amolecia, parecia sequer ouvir as palavras. Socos e por favor. No chão e por favor. Existe algo que se rompe nos homens quando palavras já não servem de escudos.

Relatos de trânsitos*

Primeira marcha. Acelera. Segunda marcha. Para. Sinal fechado. Buzinas a ruir. Primeira marcha. Acelera. Para. Quase bate. Buzinas. Curvas. Trânsito travado. Todos os dias a mesma rotina. O motorista cansa de transitar pelos mesmos caminhos. Responsável pelo transporte. Responsável pelas vidas. Responsável pelo fluxo. Cansado.

Leandro Rangel escuta música enquanto dirige. Evita o pesar do tráfego. Evita o pensar no trânsito. Um quilômetro de cada vez. Louvado seja o Senhor. Jesus amado. A graça do Senhor. Baladas de sua estação de rádio. Leandro canta e ora. Ora para que o dia termine. Cansado das vias congestionadas. Fatigado pela pressa. Motorista, mas passageiro na vida dos transeuntes. Atravessa de Leste a Oeste. Vai pelo Centro e pelo Sul dessa cidade que vende maravilhas. Leandro vive o trafegar carioca.

São mais de trinta anos de vida. Poucos de manobras próprias. Parece tranquilo, esconde o estresse. Leandro conta seu passado como passatempo. Um mundo de histórias entre sinais fechados. Viajante, já atravessou outras estradas. Também parou horas em outras esquinas. Tudo antes de pilotar ônibus. Na juventude, jogou esperanças no exercício militar. Serviu. Sim, senhor. Prestou serviço. Foi milico. Um passado presente. Uma memória que prefere não alimentar.

Brasília, Curitiba, Porto Alegre. O serviço é federal. Outras estruturas, outras cidades. Um posto que sempre soube preservar. Veio então a grande oportunidade. Uma ação militar. Uma ação de paz. Um mundo a desbravar. Era 2005, clareia ao relatar: Nações Unidas, missão exemplar, orgulho nacional. Os que agora procuram em nossas terras uma terra sentiam então o gosto do nosso punho militar. O Haiti não é aqui. Haiti é longe. Está nos olhos dos imigrantes e na vida dos migrantes. Haiti é para onde foi o motorista trabalhar em missão de paz.

Cautela ao alumbrar o passado. Leandro viveu seis meses na ilha. Diz que “tem coisa que quero esquecer. Tirar da cabeça. Nunca mais pensar”. Relata com dor que não há água potável. Não há saneamento. Quase toda população tem alguma doença grave. Conta que os corpos das pessoas mortas jaziam pelas ruas. Um país de jovens pela guerra, jovens pela fome, jovens pelas doenças mais básicas. O motorista não quer se lembrar de um mundo sem infância. Sem brincadeiras de rua ou futebol. Todos inseridos no mar de violência.

Fica mudo por um tempo. Pensa ao manobrar. Nunca vai esquecer o que perdeu por lá. Não foi somente a inocência de crer. Crer em paz, crer em militar. Perdeu uma amizade. Morta por fuzil. Um tiro entre o olho e o nariz. Aponta exatamente o lugar. Morreu nas ruas. Um fuzil nas mãos de uma criança que jamais foi criança. Nas mãos de um sobrevivente. Guerreiro de mil guerras. Dez anos tinha. Acertou bem ali, parte vital. Seu amigo foi morto por um menino de dez anos armado com um fuzil quase de seu tamanho.

Só Jesus. É só Jesus pra nos ajudar. Nesse mundo cão, sem infância, sem água, sem chão. Um povo destruído rompeu algo no motorista contador. Nunca mais foi o mesmo. Recebeu outras incumbências. Depois de seis meses no inferno foi mandado de férias para Nova York. Nada fazia sentido. Largou o uniforme camuflado. Deixou de lado o seu fuzil. Pediu um tempo, um médico, uma oração. Foi trafegar pela cidade, abrindo passagem para outras histórias. Agora quer ser policial no Rio de Janeiro. É mais tranquilo, diz Leandro. Mais tranquilo do que manobrar a vida dos outros sem saber bem o motivo de tudo isso.

*Texto publicado no Zine Travessias.

Travessias

Rua dos Inválidos

Um homem caiu na rua. Um corpo atirado ao chão. Ficou imóvel. Seu rosto sangrava. Marcas de surra. Era noite no Rio de Janeiro. Era festa na Lapa. Na esquina da Rua dos Inválidos um homem permaneceu caído no chão.
As pessoas passavam com uma pressa rara para a madrugada, hora das intensas lerdezas. O bar na esquina da Rua dos Inválidos seguia funcionando, garçons carregavam cervejas e pastéis pelas mesas. O homem no chão era pano de fundo, decorativo. O homem no chão não existia.
A caminho da festa mulheres de caras pintadas passavam apressadas. Grupos de homens rindo de qualquer coisa sequer gaguejavam. Seus pés tocavam o mesmo chão da esquina em que o homem caído e sangrando permanecia imóvel. Não deram nem um segundo olhar.
Uma hora depois e nem ambulância, nem médicos, nem uma pessoa sensível parou na esquina para saber se o homem caído na Rua dos Inválidos estava vivo. Mera ilustração não ficcional da via.

Um domingo incomum

Leda acordou cedo naquela manhã de domingo. Vestiu seu roupão para conter o frio e esquentou a água para seu chá matutino. Ela sabia que seria um dia incomum. A noite foi atormentada por pesadelos, por inquietações. Se revirou na cama como fazia quando ainda era adolescente e a expectativa da vida futura não lhe permitia dormir, apenas sonhar. Leda lembrava muito bem a quem recorria nas madrugadas frias daquela pequena cidade para conversar. Tantos anos passados e ela ainda conseguia se lembrar do aroma do quarto, do calor da lâmpada acesa, do amarelo inundando o ambiente escuro. Leda estava com os olhos fechados, rememorando, quando a chaleira anunciou o ponto final de quentura da água.

Era uma mulher sólida. Assim fora definida por seus colegas de trabalho em uma fracassada tentativa de festejar seus vinte anos de serviço. Leda sabia muito bem que não era invejada, sequer admirada por seus pares. Os mais jovens a tratavam com um respeito carregado de lástima. Sempre podia perceber os segundos de hesitação, as opiniões não expressadas, os olhares enviesados. Apesar da tentativa de ignorar o que os outros pensavam sobre ela, Leda sentia uma raiva contida em sua desesperança e indiferença. Há mais de vinte anos fora obrigada a ficar na pequena cidade e cuidar dos pais que envelheciam requerendo cada vez mais atenção. Quando sua mãe foi internada pela segunda vez, Leda percebeu que deveria desistir de qualquer sonho de mundo. Ela precisava ser a rocha sólida, a voz da razão, a filha esperada.

O sol sequer apareceu naquela manhã. Leda sabia que a chuva não era um sinal, mas não pôde evitar a sensação de predestino que o domingo chuvoso proporcionava. Ela refletia enquanto mastigava suas bolachas champagne e tomava o chá preto com leite. Esperou até que os sinos da igreja anunciassem o começo oficial do domingo para sair de casa. Precisava comprar comida, um cobertor extra e uma luminária. Não saberia justificar a demora em cumprir tarefas tão ordinárias, mas deixou para fazer as compras na manhã do domingo.

O mercado estava praticamente vazio, poucos funcionários com os olhos cheios de sono abriam lentamente os caixas e se preparavam para mais um dia de exploração. A população da pequena cidade havia celebrado o funcionamento dominical do mercado, mas os empregados tomaram a nova medida com preguiçosa resignação.