um poema?

sinto falta de passar a noite em claro
e ouvir os primeiros pássaros
cantando os raios solares
e o frio das manhãs do sul.
sempre ouvia os pássaros
da minha janela na cidade grande
um paradoxo
mais um.

sinto falta do cheiro de jasmim
daquela noite triste
em que perdi quem mais amei
existe uma lembrança do olfato
impossível de apagar
é a semente
do eucalipto
o jasmim já morto
boiando em água na sala
é o mofo do quarto escuro
gelado
da praia no sul do sul

sinto uma estranha sensação de não ser daqui
nem de lá
pertencer a um não lugar
habitar certos abismos, bandeiras tremulantes, fronteiras.

me perco
sonho com a casa na praia
passo horas a imaginar
as manhãs na areia
as tardes com jazz e calor
mas se paro pra pensar
não é com a casa que sonho
nem com o mar
é com ele
vivendo ali comigo
sendo dois
na verdade não importa o abrigo
areia, montanha, muralha
o que procuro é um olhar
de manhã
e depois do jantar
pra dialogar sem medo
e sonhar acordada.

Cordão umbilical

Ela me disse que sabia como era difícil cortar o cordão umbilical. “É doloroso”. Ela disse isso me contando suas histórias de passado. Eu escutei sem entender. Não pensava que alguém ainda sentia essa dor lá pelos quarenta. Achava, ignorante, que isso se corta no parir. Acontece que uma metáfora não deixa de ser menos real, ou sentida, por ser metafórica. Até aqueles vinte e poucos evitei olhar para meu próprio umbigo, achando que era coisa de narciso, coisa de maluco. O pior foi perceber que o tal cordão não apenas permanecia forte, mas que me envolvia por completo, tal qual cobra amazônica. Gigantesca conexão invisível. Eu me alimento dela que se alimenta de mim.
Ela me perguntou se eu não achava doloroso cortar o cordão umbilical. Eu ri dessa pergunta. Como assim cortar? É coisa de médico fazer isso. Não pensei, infantil, que eu precisaria tomar qualquer atitude. Acreditava que a vida se encarregava disso, que distâncias, que relações, que caminhos e decisões. Não lembrava o principal, o que me compõe, o que me faz existir: palavras.
Em casa nunca fomos de usá-las para olhar umbigos. Elas eram exploradas para discutir futuros, mundos, conjunturas. Nunca para si. Apenas para se. Improváveis sonhos, longínquos planos, distantes geografias. O que é próximo dói. Melhor olhar lá, horizonte imenso. Nunca pensei que palavras serviam como armas para cortar o que nascia com a gente. Ainda mais tarde percebi que não apenas as palavras precisariam ser usadas, mas que uma escuta se faria necessária.

Por favor

Ela disse por favor. Por Favor. Por Favor! Era sua única arma. Ele atacava com facas, com braços, com força. Ela dizia por favor. Por favor. Por favor. Dizia porque sempre fora escutada quando dizia por favor. Foram essas palavras mágicas que abriram todas as portas até hoje. Por favor e todos faziam silêncio. Por favor e as portas se abriam. Por favor e todos os problemas poderiam ser resolvidos.
Naquela rua. Voltando para casa. Tarde porque as horas se perderam. Por favor ela gritava. Por favor. Nenhuma reação. O rosto do homem não amolecia, parecia sequer ouvir as palavras. Socos e por favor. No chão e por favor. Existe algo que se rompe nos homens quando palavras já não servem de escudos.

Relatos de trânsitos*

Primeira marcha. Acelera. Segunda marcha. Para. Sinal fechado. Buzinas a ruir. Primeira marcha. Acelera. Para. Quase bate. Buzinas. Curvas. Trânsito travado. Todos os dias a mesma rotina. O motorista cansa de transitar pelos mesmos caminhos. Responsável pelo transporte. Responsável pelas vidas. Responsável pelo fluxo. Cansado.

Leandro Rangel escuta música enquanto dirige. Evita o pesar do tráfego. Evita o pensar no trânsito. Um quilômetro de cada vez. Louvado seja o Senhor. Jesus amado. A graça do Senhor. Baladas de sua estação de rádio. Leandro canta e ora. Ora para que o dia termine. Cansado das vias congestionadas. Fatigado pela pressa. Motorista, mas passageiro na vida dos transeuntes. Atravessa de Leste a Oeste. Vai pelo Centro e pelo Sul dessa cidade que vende maravilhas. Leandro vive o trafegar carioca.

São mais de trinta anos de vida. Poucos de manobras próprias. Parece tranquilo, esconde o estresse. Leandro conta seu passado como passatempo. Um mundo de histórias entre sinais fechados. Viajante, já atravessou outras estradas. Também parou horas em outras esquinas. Tudo antes de pilotar ônibus. Na juventude, jogou esperanças no exercício militar. Serviu. Sim, senhor. Prestou serviço. Foi milico. Um passado presente. Uma memória que prefere não alimentar.

Brasília, Curitiba, Porto Alegre. O serviço é federal. Outras estruturas, outras cidades. Um posto que sempre soube preservar. Veio então a grande oportunidade. Uma ação militar. Uma ação de paz. Um mundo a desbravar. Era 2005, clareia ao relatar: Nações Unidas, missão exemplar, orgulho nacional. Os que agora procuram em nossas terras uma terra sentiam então o gosto do nosso punho militar. O Haiti não é aqui. Haiti é longe. Está nos olhos dos imigrantes e na vida dos migrantes. Haiti é para onde foi o motorista trabalhar em missão de paz.

Cautela ao alumbrar o passado. Leandro viveu seis meses na ilha. Diz que “tem coisa que quero esquecer. Tirar da cabeça. Nunca mais pensar”. Relata com dor que não há água potável. Não há saneamento. Quase toda população tem alguma doença grave. Conta que os corpos das pessoas mortas jaziam pelas ruas. Um país de jovens pela guerra, jovens pela fome, jovens pelas doenças mais básicas. O motorista não quer se lembrar de um mundo sem infância. Sem brincadeiras de rua ou futebol. Todos inseridos no mar de violência.

Fica mudo por um tempo. Pensa ao manobrar. Nunca vai esquecer o que perdeu por lá. Não foi somente a inocência de crer. Crer em paz, crer em militar. Perdeu uma amizade. Morta por fuzil. Um tiro entre o olho e o nariz. Aponta exatamente o lugar. Morreu nas ruas. Um fuzil nas mãos de uma criança que jamais foi criança. Nas mãos de um sobrevivente. Guerreiro de mil guerras. Dez anos tinha. Acertou bem ali, parte vital. Seu amigo foi morto por um menino de dez anos armado com um fuzil quase de seu tamanho.

Só Jesus. É só Jesus pra nos ajudar. Nesse mundo cão, sem infância, sem água, sem chão. Um povo destruído rompeu algo no motorista contador. Nunca mais foi o mesmo. Recebeu outras incumbências. Depois de seis meses no inferno foi mandado de férias para Nova York. Nada fazia sentido. Largou o uniforme camuflado. Deixou de lado o seu fuzil. Pediu um tempo, um médico, uma oração. Foi trafegar pela cidade, abrindo passagem para outras histórias. Agora quer ser policial no Rio de Janeiro. É mais tranquilo, diz Leandro. Mais tranquilo do que manobrar a vida dos outros sem saber bem o motivo de tudo isso.

*Texto publicado no Zine Travessias.

Travessias

Rua dos Inválidos

Um homem caiu na rua. Um corpo atirado ao chão. Ficou imóvel. Seu rosto sangrava. Marcas de surra. Era noite no Rio de Janeiro. Era festa na Lapa. Na esquina da Rua dos Inválidos um homem permaneceu caído no chão.
As pessoas passavam com uma pressa rara para a madrugada, hora das intensas lerdezas. O bar na esquina da Rua dos Inválidos seguia funcionando, garçons carregavam cervejas e pastéis pelas mesas. O homem no chão era pano de fundo, decorativo. O homem no chão não existia.
A caminho da festa mulheres de caras pintadas passavam apressadas. Grupos de homens rindo de qualquer coisa sequer gaguejavam. Seus pés tocavam o mesmo chão da esquina em que o homem caído e sangrando permanecia imóvel. Não deram nem um segundo olhar.
Uma hora depois e nem ambulância, nem médicos, nem uma pessoa sensível parou na esquina para saber se o homem caído na Rua dos Inválidos estava vivo. Mera ilustração não ficcional da via.

Um domingo incomum

Leda acordou cedo naquela manhã de domingo. Vestiu seu roupão para conter o frio e esquentou a água para seu chá matutino. Ela sabia que seria um dia incomum. A noite foi atormentada por pesadelos, por inquietações. Se revirou na cama como fazia quando ainda era adolescente e a expectativa da vida futura não lhe permitia dormir, apenas sonhar. Leda lembrava muito bem a quem recorria nas madrugadas frias daquela pequena cidade para conversar. Tantos anos passados e ela ainda conseguia se lembrar do aroma do quarto, do calor da lâmpada acesa, do amarelo inundando o ambiente escuro. Leda estava com os olhos fechados, rememorando, quando a chaleira anunciou o ponto final de quentura da água.

Era uma mulher sólida. Assim fora definida por seus colegas de trabalho em uma fracassada tentativa de festejar seus vinte anos de serviço. Leda sabia muito bem que não era invejada, sequer admirada por seus pares. Os mais jovens a tratavam com um respeito carregado de lástima. Sempre podia perceber os segundos de hesitação, as opiniões não expressadas, os olhares enviesados. Apesar da tentativa de ignorar o que os outros pensavam sobre ela, Leda sentia uma raiva contida em sua desesperança e indiferença. Há mais de vinte anos fora obrigada a ficar na pequena cidade e cuidar dos pais que envelheciam requerendo cada vez mais atenção. Quando sua mãe foi internada pela segunda vez, Leda percebeu que deveria desistir de qualquer sonho de mundo. Ela precisava ser a rocha sólida, a voz da razão, a filha esperada.

O sol sequer apareceu naquela manhã. Leda sabia que a chuva não era um sinal, mas não pôde evitar a sensação de predestino que o domingo chuvoso proporcionava. Ela refletia enquanto mastigava suas bolachas champagne e tomava o chá preto com leite. Esperou até que os sinos da igreja anunciassem o começo oficial do domingo para sair de casa. Precisava comprar comida, um cobertor extra e uma luminária. Não saberia justificar a demora em cumprir tarefas tão ordinárias, mas deixou para fazer as compras na manhã do domingo.

O mercado estava praticamente vazio, poucos funcionários com os olhos cheios de sono abriam lentamente os caixas e se preparavam para mais um dia de exploração. A população da pequena cidade havia celebrado o funcionamento dominical do mercado, mas os empregados tomaram a nova medida com preguiçosa resignação.

O lenço azul

Atei o lenço à cama. Com cuidado, dei dois nós. O lenço azul marcado por listras mais azuis. Não saberia dizer quando começou. Anos já se passaram. O lenço é minha âncora. Prendo-o para não me perder. Finco minhas raízes em forma de lenço. Tudo muito simbólico, é claro. Ainda assim, jamais poderia mensurar a importância desse gesto.
Anos atrás, ávida por outro céu e outro horizonte, parti em uma viagem de alguns meses. Grande passo, primeiro passo. O nervosismo que antecipa a partida chegou forte, pensei em desistir. Encontrei o lenço, não me recordo bem de que maneira ele parou em minhas mãos. É um lenço comum, um objeto qualquer.
Quando cheguei longe e encontrei uma imensidão de altitudes e desertos me senti a esmo. Navegando solitária em terra dura e quente, entre vulcões semi-adormecidos e horizontes muito brancos. Abri a mala no quarto pequeno e encontrei o lenço. Me atei à cama, criei meu próprio conforto, meu porto, minha parada. Hoje posso fazer andanças, me perder em morros e vielas de um centro movimentado, já estou novamente ancorada.