esclarecer

Preciso que esteja claro: não escrevo para ser lida. Não escrevo para que alguém leia. Ninguém. Nem específico nem geral. Estas palavras estão aqui porque tirá-las de mim ajuda a respirar. Inspirar e expirar entre letras na tela. No caderno também. E outros riscos que agora formam desenhos no caderno de rabiscos. Não escrevo para agradar. Agradar não me interessa na escrita. Aqui deixo alguns dos meus órgãos, pedaços do meu corpo que estão latentes e implorando movimento. Poucas vezes o cérebro, porque me parece difícil elaborar escrita com cérebro. Por isso também é uma escritura pobrinha. Na maior parte das vezes é com o estômago. Com resquícios de tudo que já me passou e que passou por mim. Intestino também. Tem vezes que deixo apenas merda mesmo, misturada com raiva. Algumas vezes é ranho. Algumas vezes é lágrima e nessas fica tudo bem óbvio e molhado. Tem vezes que eu deixo meu braço na escrita e fico um tempo sem conseguir digitar com rapidez, lenta pela falta de braço. Tem vezes que é uma unha. Tem vezes que é um pé. Não escrevo aqui pra agradar. Também não escrevo pra machucar. Que isso fique muito claro, tanto quanto o olho que deixo nesse final: não te vejo quando escrevo.

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carona

– Você devia fazer alguma coisa. Não pode mais ficar assim.
– Eu sei, mas é difícil.
– Sempre é difícil.
– Você não entende.
– Entendo sim. O que não entendo é como você não sente raiva.
– Eu não quero sentir raiva. Não quero ser a pessoa que sente raiva.
– Mas essa situação merece esse tipo de sentimento.
– Não tenho certeza.
– Claro que sim! Pensa em tudo que aconteceu. Em todo mal.
– Mas você não entende. Havia motivo para todas essas ações.
– Nenhum motivo justifica.
– Não dá pra julgar o comportamento de alguém assim. É preciso entender. Ou pelo menos tentar.
– Desse jeito você nunca vai sair da dor. Sempre vai arranjar um motivo pra ela. Sempre vai evitar sentir dor. Isso não vai levar você a lugar nenhum. Vai ficar preso nesse ciclo.
– Não acredito nisso. É possível superar as coisas sem raiva.
– Claro que é. Quando as coisas são feitas com cuidado, mas não é o seu caso. Enquanto você tá sofrendo e procurando justificativas, o que ela está fazendo? Já pensou nisso?
– Não importa. Não é sobre ela.
– Claro que é sobre ela. Ela que te fez mal.
– Eu já estava mal.
– Ela não ajudou.
– Não é obrigação dela.
– Isso chama companheirismo. Era o que ela tinha de você, era o que ela precisava dar sim.
– Não é tão simples.
– Me explica então.
– Ela também não estava bem. Não sabia o que queria. Precisava de tempo pra si.
– Enquanto você passava mal? Tempo pra si ou tempo pra nova relação que já começava com mentiras?
– Não julga as ações dela. Eu também errei.
– Você não fez nada comparado a isso. Não há justificativa. Entenda, se alguém passa mal e outro alguém não ajuda, não se importa, aliás, piora essa situação, então esse outro alguém se coloca na posição de ser julgado sim.
– Era um combinado. Você não entende. Eu mudei de opinião porque estava sofrendo e não é fácil lidar com uma mudança de opinião.
– Pior é lidar com o sofrimento. Quando alguém faz algo que te machuca e você pede pra essa pessoa parar e ela não para, você chama isso de amor?
– Não faz essa comparação.
– A comparação é evidente. Você precisa sentir raiva. Precisa gritar. Precisa sair daquele carro. Precisa deixar de ser o passageiro na vida das pessoas e assumir a direção da própria vida.
– Esse argumento me dá razão.
– Como assim?
– Ela não me quis mais porque nunca quis dirigir esse carro em primeiro lugar. E eu pulei fora do carro, deixei sozinha. Eu também machuquei.
– Não tem comparação. Você ia fazer o quê? Ficar sofrendo dentro do carro? Na real, acho que era o que ela queria desde o começo, que você tomasse a atitude de pular fora.
– Sei lá. Talvez existisse alguma alternativa.
– Você precisa parar de pensar em possibilidades e começar a sentir raiva.
– Eu não quero sentir raiva.
– Desse jeito pode acontecer de novo.
– De novo?
– O carro.
– Não. Não fala isso.
– Pensa bem. É preciso raiva pra gritar e lutar pela própria vida. É uma questão de sobrevivência.

título

E se ele tivesse se negado a subir e subir a pedra gigante e tivesse se revoltado com a condena de uma vida inteira. Então talvez a metáfora se perderia ou surgiria como símbolo de outras tantas coisas. E se ela não tivesse aceitado a condição imposta e vivesse sua vida de forma livre e bastante solitária mas sob os próprios comandos. E se eles tivessem se organizado e juntos tivessem resistido até a morte mesmo e hoje a morte fosse apenas uma história do passado e não uma presença constante no presente de alguém que resolveu resistir ao ser conivente.
A história e suas metáforas. As mulheres e suas condenas. O passado e seus covardes. Amores covardes não chegam a amores nem a histórias, eles ficam ali. O beijo retratado em amarelo, forçado, desejado, bonito? É um símbolo de união inter-racial ou mais uma imagem romântica que não faz sentido? O romantismo não faz sentido, já faz um tempo que sabemos disso. Amor romântico mata. Mas o que consumimos agora também faz um mal danado. Se você tiver que escolher entre você e o seu amor, você escolhe quem? Você escolhe quem? É no gozo que eu vou. Amor é sentimento próprio, individual. A pessoa fica consciente do sentimento se ele é dito, demonstrado, mas é individual. Amor é reflexo, é espelho. Recôncavo ou não. E pra dentro todos os caretas, no mesmo barco. Amor é eu antes de você. Sempre. E parem de confundir carinho com isso. Parem de confundir cuidado com isso. Parem as expectativas, as impressões. Chega de livros. Chega de músicas. Vão vender outra coisa.
A vida de cabeça pra baixo também gira. Dá voltas e mais voltas em torno de nada. Terraplanista dos sentidos. A ruína, meu bem. A ruína somos nós. O futuro é cada um girando ao seu redor e nada poderia prever um destino tão assim. O escritor me olha de lado, desconfiado. Saberá o que pretendo fazer? Saberá dos planos superficialmente traçados? Gira. Gira. Não sai do lugar. Ainda não. Mas e se. E se. Se rei. Mesmo que seja só. Amar é outra coisa. Amar é pra amadores. Amanhecerá.

leme no fundo da memória

São eventuais os encontros que procuramos não esquecer. Uma amizade de mais de dez anos contada em momentos. Lembra aquela vez, aquele dia, aquela noite, aquele vinho. As cartas são escritas pra tecer o melhor de nós. Eu fiz, você desejou. Você cresceu, eu me perdi. Entre o Sul e o quase Sul não faltaram palavras. Ainda assim, tivemos uma noite especial.
Talvez tenha sido assim marcante pela presença tão intensa dos outros dois. Casados, ex amantes, futuros amantes, quiçá, nesse Rio. É quase uma profecia do poeta do belo e do irônico. Esperei pela tua chegada com ansiedade e programei nossas voltas, curvas e deslizes. Pouco do planejado se concretizou mas enfim retomamos alguma conexão falha de idas e vindas. Você disse que nunca estivemos tão conectados. Eu senti um gosto familiar na boca. É sobre a despedida que quero escrever para não esquecer jamais.
O leme brilhava já tarde da noite. Saíamos da pedra sob duas rodas, cada um de nós. Aproveitamos a calçada grande e o vazio da noite. Não sei quem começou a tocar a buzina da bicicleta. Acho que foi ela, logo fui eu e depois você e depois ele. Vínhamos ziguezagueando e brilhando junto com as luzes do leme. Os blénsbléns provocavam sorrisos e aqueciam o coração. Estávamos juntos e felizes numa noite de outubro. Talvez procurássemos capturar o tempo, evitar tua ida, viver sem contar segundos. Provavelmente ninguém estava realmente pensando em nada. Foi um desses momentos não pensados, não planejados, espontâneos como os melhores comentários.
Naquele curto trajeto de um bairro tão pequeno quanto o leme fizemos mágica. Marcamos fundo uma lembrança no céu da memória. Você disse que queria uma foto daquela noite. Ela disse que parecia cena de filme. Fomos arte. Acho que foi melhor do que qualquer enquadramento. Foi a vida, essa ousada, tocando nossos corações e fazendo relembrar que ela sabe produzir momentos que permanecem.

Avesso

Voltei de uma longa viagem que acreditei, duraria para sempre. Venho desgastada, cansada, um pouco quebrada, é verdade. Cheguei sem saber a hora, confundindo os tempos. Lágrima pelo fim da caminhada. Voltei pro começo de tudo. Dos planos, dos sonhos, das letras.
Morrer é a única forma de ter outra vida. Precisamos matar certas coisas em nós. Alguns sentimentos, alguns desejos. Casar é uma espécie de morrer, disse o pai do Lenine. Separar também. O que morre não é ninguém de carne e osso, espero, mas sim as projeções de cada um. O que seriam, o que fariam, para onde iriam, até onde?
Migrar também é uma espécie de morrer. Restamos no digital, mas a vida concreta já não existe. As esquinas, os passeios, os bares, os trânsitos. Tudo fica suspenso e às vezes é difícil acreditar que de verdade existiram. Outra vida. A mudança é radical. Quem parte nunca volta. Reparte-se no máximo.

“Eu não sabia
Que virar pelo avesso
era uma experiência mortal”

Inconfissões – novembro/68
Ana Cristina Cesar

Cosas

Quando fui recolher meus objetos pessoais, meus souvenires de vida, minhas coisas próprias, eu passei também a me recolher e guardar. Separei meus livros dos seus, minhas peças de decoração bem guardadas em papel de jornal. Peguei alguns dos quadros, os que mais me doem, e embrulhei de algum jeito para que não se estilhaçassem na viagem. Em cada cômodo encontrei um pouco de mim para limpar. Primeiro o quarto, depois o escritório, logo a sala e por último o banheiro. Por sua insistência tirei da parede outros objetos, um esqueleto amarelo.
Juntar as coisas espalhadas pela casa foi um ato difícil. Guardá-las nas grandes bagagens foi ainda pior. Pedi e recebi ajuda para me embalar de forma prática e funcional. Já ia me partindo. Muitas vezes li e ouvi relatos de partidas intempestivas, de partidas dramáticas, de partidas brutas, ou mesmo misteriosas. É incrível como a literatura, apesar de ser capaz de dimensionar os sentimentos, falha miseravelmente ao relatar a dor do simplesmente repartir-se.
Deixei para trás tanta coisa de mim. Catarina, minha planta companheira. O bambu destinado a me cuidar. Móveis grandes e agora desnecessários. Um bocado de produto de cabelo. Remédios que nem sei explicar. Algum livro que não consegui separar. As coisas da casa, da nossa, que me aprazia tanto encontrar e adquirir. Os quadros que decoravam as paredes, colocados com cuidado e desejo de beleza e acolhimento. As coisas que ficam para trás.
Meu velho-novo-pequeno quarto foi preenchido por objetos-memórias. A foto do primeiro dia na praia. O primeiro quadro uruguaio. As mãos que se entrelaçam. A garrafa de paquetá. O lenço verde. O esqueleto amarelo. Algo me diz que o que ficou também se repartiu e carrego comigo um pouco desse ontem. Mas talvez seja só uma impressão colada nas coisas.

Um ano de dor

Tentamos nos convencer de diversas maneiras. Não é comigo. Não tem a ver comigo. Eu não tenho nenhuma relação com isso. Eu analiso o macro, mas eu vivo só o micro. O mundo é lá fora. Eu aqui sigo vivendo bem. O esforço é tamanho que desacreditamos  uma consigna antiga: o pessoal é político. Só que essa frase não fala apenas de um caminho de dentro pra fora. Ela fala do reverso também. O que acontece fora nos afeta. Profundamente. Não é egoísmo reconhecer as dores do mundo dentro de si, é atenção. O que está acontecendo nos afeta. Tem a ver com a gente. Temos relação com tudo isso.
Faz um ano que assassinaram a Marielle. Isso nos dilacerou. A todos nós. Sim, a todas, sem escapatória. Você lembra o que fazia quando recebeu a notícia? Eu estava sentada no tapete da sala, com meu computador no colo, tentando escrever um projeto, um resumo de trabalho acadêmico que incluía entrevistas com mulheres incríveis sobre autocuidado. Eu escrevi o nome dela naquela noite. A mulher da revolução democrática, que rompeu barreiras, que enchia espaços, que ocupava a cidade, que fazia primavera acontecer. Uma vereadora para o Rio de Janeiro. Ela era minha principal entrevista.
Foi uma fake news, uma mentira na internet. Não podia ser verdade o que aquela manchete afirmava. Eu não acreditei. Então veio uma segunda manchete e um jornal mais sério confirmou. E depois disso foi desesperador. Liguei pra minha companheira e ela ainda não sabia. Dilacerei-a com a notícia. Já não havia palavras pra trocar. O que aconteceu a partir daquele momento ainda não tem nome. Como bem disse a jornalista com dom de recortar o mundo, perdemos as palavras. Não há o que dizer nem como.
Soa quase como um esforço inútil escrever qualquer coisa. Parece que tudo se quebrou. O riso, a rua, o significado de cada esquina, o amor contido no peito, a esperança de um futuro bonito. Tudo foi embora com a palavra roubada. Tudo foi embora quando nos dilaceraram. Um ano de derrotas catastróficas. Estamos apanhando todos os dias. E não adianta gritar na rua com os pulmões já doloridos. Não adianta ficar em casa contida. Não adianta anestesia. Não serve de nada ser pragmática ou abstrata. Nem deus nos ajuda desta vez. Estamos despedaçadas.
Sim. Há gente sofrendo mais. Sim. Há gente sofrendo há muito mais tempo. Sim, as pessoas já estão habituadas a viver despedaçadas. Mesmo considerando tudo isso, ainda há dor porque Marielle era essa pessoa. A base da pirâmide, a mulher negra, mãe, lésbica ou bissexual, da favela, socialista, batalhadora. Ela era tudo que a gente queria que esse país conseguisse ser, ela estava viva e fazendo vida acontecer. Quando digo que estamos dilaceradas é porque isso quebrou os nossos sonhos e eles se confundem sim. As eleições, o horror de seu resultado. A derrota ambiental, a derrota econômica, a derrota social. Meu sonho individual de um amor político, de uma família planejada, de uma vida compartilhada na luta se esfumou com o fim da palavra. Meu sonho coletivo de uma sociedade mais inclusiva, mais justa, mais humana, foi destruído e estilhaçado há um ano.
A morte que causamos como sociedade também nos mata. A morte nos dilacera. Não retomaremos o fôlego até reconhecer isso. Marielle precisa viver de alguma forma, nem que seja como palavra-utopia.