Música

É raro, mas existem dias em que acordamos com a memória na boca. Uma manhã comum do nosso período mais difícil. Naquela época em que subiam por nossos corpos, durante a noite, as imensas baratas. Sim, eu sei que não é possível esquecer dos detalhes tristes. Mas eu quase nunca lembro.

Naquele espaço mínimo em que vivíamos os quatro, espaço que hoje tem o tamanho da sala deste apartamento, nós não tínhamos nada. Mas tínhamos música.

Ela era servida como café da manhã por meu pai. A fartura era grande: música cubana, música latina, música brasileira e variações de Bob Marley. Se escutava de longe. Os meus primeiros segundos do dia, no nosso período mais difícil, eram melódicos.

Que saudade desse sabor de gente e amor que se fazia escutar.

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Estética do frio histérico

Das loucuras de todos nós. Confesso que não gosto de andar de avião. Não gosto de sair de Porto Alegre de avião. Talvez porque sempre penso que vai acontecer alguma coisa. E como tenho sina de formação jornalista já fico imaginando como seria tratado o assunto pela mídia local. Hoje embarquei com um grupo enorme de dançarinos de música tradicional do Rio Grande do Sul que provavelmente iria participar de algum evento em outro país (pelas mochilas com bandeiras do RS e do Brasil). Já imaginava a manchete bairrista sobre os jovens – tão jovens – que com orgulho levavam nossas tradições aos rincões mais distantes e que por culpa de alguém (da empresa? do piloto? dos céus? sempre tem alguém culpado) não conseguiram chegar lá para representar a todos os gaúchos. Tragédia nacional, apocalipse bairrista… E a novela da provável cobertura sensacionalista segue na minha cabeça até a moça falar chegamos-no-aeroporto-Galeão-mil-graus-estamos-vivos.

querer

E confessar, sem pudor, que se quer algo. Querer mesmo. Um desejo de vida. Ir à merda. Ir. Encarnando os problemas. Colocando-os na carne. Não feito tatuagem. Não. Feito penugem, feito dobra, feito cicatriz. Olhar para o espelho, essa folha de papel, e dizer eu quero. Porque ser quem se é sempre vale a pena. Não, não é autoajuda. Estou para além da ajuda. A linha é um ponto. Confessar solidão, confessar dor, confessar amargor. Esse que não é verde nem quente. Um tango, a planta e a canção. Lá no topo da vida material olhar para o mundo e dizer eu quero algo daqui. Minha avó dizia, por favor, não me coloquem num asilo. Ela que sempre foi alegre chorou ao voltar do hospital. Na porta do apartamento que era dela. Que era alugado, mas era dela porque ali estava sua vida, sua decoração, seus enfeites, suas lembranças. Ali na porta ela chorou. E tremia de soluço como uma pessoa pequena. Ela que era gigante. E disse entre soluços que achou que nunca voltaria pra casa. Que temia o asilo. Temia a solidão. Ela disse eu quero. Como custa dizer o que se quer.

Grão de escrita

Um teto todo seu ou uma coragem de letras que emerge do sangue subdesenvolvido. Uma ânsia de revolução pela letra ou a calma da segurança da ficção. Minhas ideias sobre as condições ideias para a escrita são frágeis, são de alguém que não escreve. Talvez, como afirmam alguns, para uma boa lapidação das letras seja necessário tempo. Tempo mesmo, horas de sobra na agenda. Nada de compromissos, prazos e programas combinados. Para a escrita, dizem, é necessário espaço. Não necessariamente um teto, mas certamente um chão. Onde for. Café, praça, casa, banheiro ou biblioteca. Pra escrita, afirmam alguns, mais necessário do que tudo que é material, é preciso ter assunto. Uma história, uma memória, uma boa criação. Inspiração. Um sopro de incentivo dos céus, dos neurônios, processo ou religião. Já li em algum lugar sugestões sobre a necessidade de disciplina, regras, método. Um organizar de canetas, de papéis.
Todas são condições interessantes, mas se posso contribuir com essa imensa lista de idealizações feitas por escritores com minha experiência de não escrita, eu diria que as condições ideais para a escrita estão mais dentro do que fora. Estão na confiança em ser o que se é. Na liberdade de se permitir ver o mundo pelos próprios olhos e confiar nisso como fonte de escrita. Em certo orgulho sobre o trajeto e o destino pessoal. Em uma espécie de ideologia particular muito relacionada ao que se quer pro mundo, ao que se faz pro mundo, ao que se vive. Mesmo os escritores de vida mais miserável tinham em alguma medida um tipo de faísca por dentro que fazia emergir letrinhas, mesmo que viessem na forma de vômito, de sangue, de lágrima. A fluidez dos afetos, essa parece ser uma das principais condições para a escrita.

Caio?

Peguei novamente um antigo caderno de anotações. Escrevi algumas palavras, como uma pessoa que volta de uma longa viagem e não sabe bem por onde começar a contar as experiências. “Não tenho absolutamente nada contra qualquer coisa que soe a uma tentativa”. Caio. Caio F. Caio F Abreu. Suas palavras em um conto. Um desses contos crus, dessas suas palavras libertárias, verdadeiras, quase imperceptíveis. Nada contra veados, nada contra lésbicas, nada contra degenerados em geral. Tudo soava à tentativa. Dia sim, dia não. Tentando conquistar um sorriso merecido. Enchendo copos e esvaziando camas.
Escrevi algumas palavras que Caio não gostaria de ler. Só posso imaginar. Só posso supor que ele me acharia conservadora. Tanto quanto eu acho conservadores os gays que querem casar. Aqueles que só querem casar e viver a normalidade hetero. Conservar algo. Em vinagre mesmo. Perdendo cada pedaço de revolução que se carregava na boca, no corpo. Escrevi algumas palavras sobre ser conservadora. Sobre estar vivendo uma vida privilegiada em uma cidade desigual.
Em muitos sentidos essa é uma vida solitária. E eu que tanto sonhei com essa solidão hoje me vejo questionando aspirações. Questionando as rotas que me trouxeram até aqui. Nem longe, nem perto o suficiente. Nem aberta, nem fechada. Nem livre, nem presa. Nem grande, nem pequena. No Uruguai eles têm um nome novo pra pessoas como eu: ninis. Ni una cosa, ni otra. Ni trabajo, ni estudio. Ni pasado, ni futuro. Que no ni no. Encerrem tudo. O progressista é o maior reacionário. Sigam com as máquinas. A liberdade foi capturada. Casem-se. Reproduzam-se. Tentem disfarçar os fracassos. Será que Caio estaria de verde e amarelo?

Não escrita

Por algum tempo fiquei me questionando sobre o silêncio dos últimos anos na minha escrita. Essa questão nunca recebeu uma resposta satisfatória. Ela existe e se faz constante porque escrevo quase que instintivamente desde adolescente mesmo sem saber escrever direito e sem querer escrever por algum motivo maior. Mas já faz alguns anos que não tenho feito mais do que escritas burocráticas, pagas, exigidas em troca de dinheiro. O que mudou?
Já acreditei ser um sintoma da maturidade essa falta de letras. Também pensei que era falta de tempo, falta de um lugar apropriado para escrever, falta de dinheiro. Inventei desculpas. Pensei que já não tinha o que falar. E isso ainda me angustia. Talvez eu não tenha mais nada pra falar mesmo. Ou nenhum assunto que eu já não saiba da existência de alguém que falaria muito melhor ou com mais propriedade. Talvez escrever seja ter essa coragem de falar algo mesmo sabendo que outros falam e falariam muito melhor. Não sei.
Talvez o que mais me preocupe nesse não escrever seja o medo na hora de juntar palavras. O medo do outro. E principalmente, outro grande motivo de angústia, o fato de ainda não saber por que penso as coisas que penso. Tive um professor que mesmo cansado de falar com adolescentes desinteressados uma vez disse que pensar criticamente era sempre questionar e tentar entender por que pensamos da maneira como pensamos. Não é uma questão simples com uma resposta óbvia: sou fruto deste momento histórico. Mas também é. Talvez seja algo contido nesse individualismo extremado que me inquiete no sentido de já não conseguir escrever por não poder responder essa pergunta.
Penso como penso porque sou branca em um país extremamente racista. Penso como penso porque fui pobre em um país extremamente desigual. Penso como penso porque fui filha de imigrante. Penso como penso porque migrei quando criança e voltei a migrar. Penso como penso porque a fronteira sempre foi um bom destino pra mim. Penso como penso porque nunca fui a menina mais menina que se esperava. Penso como penso porque expresso minha sexualidade. Penso como penso porque sou mulher num mundo absurdamente machista. Penso como penso porque tive oportunidades educativas. Penso como penso porque sou filha dos meus pais. Penso como penso porque circulo por onde circulo. Penso como penso porque tenho ideologias. Penso como penso porque sou fruto deste momento histórico.
Mas essa análise pouco profunda é suficiente? Em tempos de muros nos faltam palavras. Uma jornalista que admiro escreveu sobre isso. Ainda estamos sem palavras para nomear o que nos passa neste momento histórico. Talvez seja isso que me corte a escrita, esse muro colocado que me impossibilita o feliz encontro com as fronteiras, com as letras, com os outros.
De qualquer forma eu sinto falta e só consegui escrever sobre como ainda não sou capaz de escrever.

Endeusar o futuro

Não sei em que espelho encontro meu reflexo. Os rostos mais velhos que vejo nas ruas não me dizem nada. Talvez digam tudo. Já não leio. Não tenho tempo pra ler, não tenho paciência. Passo para a próxima música, não deixo chegar nos últimos acordes. A outra música, a que virá, pode ser melhor. Nunca é. Eu sei quais músicas tenho na biblioteca virtual. O metrô vai rápido e são muitos os reflexos que encontro ali. Caras e mais caras desconhecidas. Ainda não reconheci o mesmo rosto, me falta rotina para esse tipo de detalhe. Na última noite encontrei essa senhora, não sei se posso chamar de senhora, não parecia tão velha, só tinha os cabelos grisalhos, curtos. Um rosto decidido, resolvido, maduro e sensível. Era séria sem ser solene, era militante de esquerda pelas roupas e companhias, dia de manifestação. Sentava com as pernas cruzadas, os olhos marcados, não sei se por maquiagem ou por natureza. Era bela. Encarei por um tempo esse rosto tão forte e me imaginei como desenho de seu passado. Ela me encarou também, reparou em minha bolsa, em meu broche, em meu sapato. Um reparar sem julgar exatamente, uma curiosidade, talvez a mesma que senti ao vê-la sentada em minha frente. Não sei seu nome, é provável que nunca mais a veja. Mas vi em seu rosto um reflexo de algo que não consigo imaginar ser. Isso foi diferente. Isso foi bom.
É importante não endeusar os mais velhos. É importante não endeusar os mais novos. Endeusar talvez seja uma das coisas mais violentas que se pode fazer. Não há deus, menos endeusamentos. Vamos flutuando, errando, se quebrando em mil pedaços e depois voltando a pulsar.