Brasa

O elevador do hospital público abre no térreo. Pessoas esperam nas cadeiras de um corredor a chegada de um médico que parece nem estar perto do hospital. São horas da noite alimentando a esperança de um atendimento. Do elevador, um homem todo vestido de amarelo sai empurrando uma maca. Ele encontra um amigo e comenta sobre os planos de sexta enquanto empurra a maca com indiferença. Os dois soltam gargalhadas em meio aos olhares apreensivos dos que esperam atendimento. A maior parte negra. A maior parte pobre. Na maca, um corpo imóvel se faz ver dentro de um saco plástico.

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Outra mulher

Suspeito estar enamorada de uma mulher. Uma mulher que ainda vai chegar. De certa forma estou a esperá-la. Vislumbro sua chegada no reflexo da janela, no dobrar de uma esquina, na troca de uma conversa que me surpreende. Não pelo que escuto, mas pelo que digo. Estou verdadeiramente grávida de uma mulher. Vou gestando sua formação. Meu corpo sente as modificações naturais de sua vinda. Brilho mais. Ando com mais firmeza. Ela é essa mulher que faço dentro de mim, que sai de dentro de mim. Outra mulher. Alguém a quem já amo. A quem desejo conhecer. Reconhecer. Estou gestando uma outra mulher. Quem quero ser. Quem faço por ser. Quem está no meu horizonte. Estou apaixonada pela mulher que luto para ser. Por suas posturas, seu corpo, por seu jeito de falar e se opor ao injusto. Estou interessada no que ela tem a dizer e principalmente na sua recusa em calar. Essa mulher que escreve como mulher, que briga como mulher, que ama como mulher.
Toda mulher está gestando outra mulher. Fazendo uma mulher. Em tardes de silêncio é possível escutar sua respiração intercalada com a nossa.

O que será do dia em que no raiar da manhã vermelha toda mulher perceba essa outra dentro de si?

tempos

Ando no tempo errado. não estou falando de sucesso e de fracasso. mas no tempo errado dos tempos. no momento da paz eu quis revolucionar e neste instante caótico eu escrevo de um lugar isolado. não há explicação pra isso além do meu contínuo andar no tempo equivocado. corro quando todos atravessam a rua com calma e ando tranquila mesmo sabendo que perderei o ônibus que não espera ninguém.
se esta é a explicação mais digna que posso dar para meus problemas então que assim seja. sinto mais do que consigo provar que ando no atraso ou no adianto. paro quando deveria não estar no mesmo lugar. e tudo acontece em um só instante, neste em que escrevo sozinha olhando a chuva.
imagino que esse sentimento atemporal seja algo recorrente. me perguntam direções e eu indico qualquer uma com convicção. não porque tenha certeza, mas porque acho que quem pergunta algo como uma direção está tão perdido que precisa acreditar que outro alguém sabe para onde ir. nos enganamos, somos papai noel de adultos. mas então que seja punida toda mentira. não vamos para lugar algum. estamos. neste exato instante cósmico. só de pensar em meditar eu começo a correr e faço trilhas e mais trilhas entre florestas não povoadas só para fugir das perguntas dos caretas.
o tempo se confunde e me irrita sempre estar para trás ou para frente do momento necessário de se estar em algum lugar. já olhei para os lados e de toda essa gente boa que conheço e mesmo dessa gente má que desprezo só vejo falsos deuses e terapeutas sobrecarregados. os mais sábios não saem de casa. na rua as pessoas se matam. às vezes se matam mesmo. às vezes se matam assim num suicídio coletivo, mas só quando pronunciam barbaridades indefensáveis. já não há pudor em levantar a mão e proferir um golpe por diferentes motivos. porque não se é feliz ou porque ocorreu uma injustiça ou porque alguém disse algo que se abomina ou porque um fulaninho furou a fila do pão.
a fila interminável do mercado caro que demite e terceiriza funcionários é um termômetro dos tempos. quanto tempo leva para uma paciência findar. quanto tempo leva para a rua enfurecer. quanto tempo leva para nascer e acabar o fascismo. quanto tempo leva para começar tudo outra vez?

Vamos ao eclipse

Se me perguntar quando foi a última vez em que olhei para as estrelas eu vou mentir. Estarei mentindo ao dizer que não me lembro, ou que faz muito tempo. Estarei mentindo também se disser que foi na última viagem para a ilha. Faz quanto tempo? Hoje, em dia de eclipse, as ruas do bairro se enchem de pessoas com a cabeça erguida, tão diferente do costumeiro movimento de trabalhadores desiludidos. Bocas abertas olhando para o céu ou para o horizonte. Uma meia lua. Uma lua vermelha. Seria comunista? Um mistério que encanta quem gosta de ganhar tempo olhando para o céu noturno.
O avô passa com o neto pequeno ao lado, de mãos dadas eles caminham apressados. O menino pergunta: “vô, cadê o eclipse?”, e o mais velho responde: “já vamos chegar”. Estão chegando ao eclipse, como dois corpos estrelares eles se movimentam e se aproximam do acontecimento. Os olhos do menino brilham de emoção ou talvez de ansiedade. Seria apenas pressa ou impaciência? Não sei dizer, mas o pequeno tem sorte de andar acompanhado de um velho que ainda olha para o céu e se pergunta “cadê o eclipse?”.

Quem somos nós?

Somos dessas mulheres que sabem diferenciar o barulho de um tiro do barulho dos fogos de artifício. E quando a tarde vira tumulto e o gás que era para fazer lacrimejar nos impede a respiração, somos as mulheres que se ajudam e se protegem até se afastar do perigo. Temos intuições e ânsias. Também ansiedade que faz abrir e fechar a geladeira.

Somos dessas mulheres que evitam certos lugares e certos horários. Também evitamos certas roupas e certas companhias. Uma sabedoria de não colocar-se em situações de risco mesmo quando outros não enxergam o perigo. Não a uma carona. Não a uma casa vazia. Sabemos o preço da imprudência porque pagamos o preço da nossa simples existência.

Somos dessas mulheres que preferem a clausura da própria casa se esta estiver recheada de nós mesmas. Dessas que não temem a própria companhia, que desfrutam de silêncios e preferem o debate à gritaria.

Somos dessas mulheres que bebem sem motivos, bebem com motivos e bebem para motivar-se. Também perdemos a compostura, gritamos o ódio aos modos e modismos e acordamos no dia seguinte com o gosto da ressaca e a sensação de algo perdido.

Somos dessas mulheres que já se sentiram diminuídas, ultrajadas, ofendidas e negligenciadas. Somos essas que procuram no olhar do outro o companheirismo que os livros prometeram. Também somos as que constroem outras pontes e denunciam os maus usos das nossas palavras.

Somos medíocres para o que poderíamos ser. Somos gigantes para o que esperam de nós. Somos uma contradição que não procura ponto final. Somos também a dúvida da dúvida. Somos um mar de mistérios e uma gota de simplicidade. Carregamos nas cicatrizes corporais e da memória as histórias de ser quem somos. Tentamos nos despossuir de nós e escutar a voz de outras irmãs. Somos as que sangram mês a mês e sempre respiramos antes de voltar a falar.

 

Há um abismo profundo entre nós e eles. Um abismo disfarçado de paisagem, de fronteira, de aduana, de negociação. Eles estão lá, mesmo estando aqui. Bom seria expulsá-los e procurar outros precipícios onde o diálogo não seja um faz de conta ilustrado.

peixe

Venda seu peixe.
Ofereça seu peixe.
Valorize seu peixe.
Decore seu peixe.
Ilumine seu peixe.
Pinte seu peixe.
Brinque com seu peixe.
Dance com seu peixe.
Cante ao seu peixe.
Namore seu peixe.
Caminhe ao sol com seu peixe.
Faça malabarismo com seu peixe.
Faça um poema para seu peixe.

Só não deixe
ninguém nunca
dizer
que seu peixe
fede.

Música

É raro, mas existem dias em que acordamos com a memória na boca. Uma manhã comum do nosso período mais difícil. Naquela época em que subiam por nossos corpos, durante a noite, as imensas baratas. Sim, eu sei que não é possível esquecer dos detalhes tristes. Mas eu quase nunca lembro.

Naquele espaço mínimo em que vivíamos os quatro, espaço que hoje tem o tamanho da sala deste apartamento, nós não tínhamos nada. Mas tínhamos música.

Ela era servida como café da manhã por meu pai. A fartura era grande: música cubana, música latina, música brasileira e variações de Bob Marley. Se escutava de longe. Os meus primeiros segundos do dia, no nosso período mais difícil, eram melódicos.

Que saudade desse sabor de gente e amor que se fazia escutar.