Vamos ao eclipse

Se me perguntar quando foi a última vez em que olhei para as estrelas eu vou mentir. Estarei mentindo ao dizer que não me lembro, ou que faz muito tempo. Estarei mentindo também se disser que foi na última viagem para a ilha. Faz quanto tempo? Hoje, em dia de eclipse, as ruas do bairro se enchem de pessoas com a cabeça erguida, tão diferente do costumeiro movimento de trabalhadores desiludidos. Bocas abertas olhando para o céu ou para o horizonte. Uma meia lua. Uma lua vermelha. Seria comunista? Um mistério que encanta quem gosta de ganhar tempo olhando para o céu noturno.
O avô passa com o neto pequeno ao lado, de mãos dadas eles caminham apressados. O menino pergunta: “vô, cadê o eclipse?”, e o mais velho responde: “já vamos chegar”. Estão chegando ao eclipse, como dois corpos estrelares eles se movimentam e se aproximam do acontecimento. Os olhos do menino brilham de emoção ou talvez de ansiedade. Seria apenas pressa ou impaciência? Não sei dizer, mas o pequeno tem sorte de andar acompanhado de um velho que ainda olha para o céu e se pergunta “cadê o eclipse?”.

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Quem somos nós?

Somos dessas mulheres que sabem diferenciar o barulho de um tiro do barulho dos fogos de artifício. E quando a tarde vira tumulto e o gás que era para fazer lacrimejar nos impede a respiração, somos as mulheres que se ajudam e se protegem até se afastar do perigo. Temos intuições e ânsias. Também ansiedade que faz abrir e fechar a geladeira.

Somos dessas mulheres que evitam certos lugares e certos horários. Também evitamos certas roupas e certas companhias. Uma sabedoria de não colocar-se em situações de risco mesmo quando outros não enxergam o perigo. Não a uma carona. Não a uma casa vazia. Sabemos o preço da imprudência porque pagamos o preço da nossa simples existência.

Somos dessas mulheres que preferem a clausura da própria casa se esta estiver recheada de nós mesmas. Dessas que não temem a própria companhia, que desfrutam de silêncios e preferem o debate à gritaria.

Somos dessas mulheres que bebem sem motivos, bebem com motivos e bebem para motivar-se. Também perdemos a compostura, gritamos o ódio aos modos e modismos e acordamos no dia seguinte com o gosto da ressaca e a sensação de algo perdido.

Somos dessas mulheres que já se sentiram diminuídas, ultrajadas, ofendidas e negligenciadas. Somos essas que procuram no olhar do outro o companheirismo que os livros prometeram. Também somos as que constroem outras pontes e denunciam os maus usos das nossas palavras.

Somos medíocres para o que poderíamos ser. Somos gigantes para o que esperam de nós. Somos uma contradição que não procura ponto final. Somos também a dúvida da dúvida. Somos um mar de mistérios e uma gota de simplicidade. Carregamos nas cicatrizes corporais e da memória as histórias de ser quem somos. Tentamos nos despossuir de nós e escutar a voz de outras irmãs. Somos as que sangram mês a mês e sempre respiramos antes de voltar a falar.

 

Há um abismo profundo entre nós e eles. Um abismo disfarçado de paisagem, de fronteira, de aduana, de negociação. Eles estão lá, mesmo estando aqui. Bom seria expulsá-los e procurar outros precipícios onde o diálogo não seja um faz de conta ilustrado.

peixe

Venda seu peixe.
Ofereça seu peixe.
Valorize seu peixe.
Decore seu peixe.
Ilumine seu peixe.
Pinte seu peixe.
Brinque com seu peixe.
Dance com seu peixe.
Cante ao seu peixe.
Namore seu peixe.
Caminhe ao sol com seu peixe.
Faça malabarismo com seu peixe.
Faça um poema para seu peixe.

Só não deixe
ninguém nunca
dizer
que seu peixe
fede.

Música

É raro, mas existem dias em que acordamos com a memória na boca. Uma manhã comum do nosso período mais difícil. Naquela época em que subiam por nossos corpos, durante a noite, as imensas baratas. Sim, eu sei que não é possível esquecer dos detalhes tristes. Mas eu quase nunca lembro.

Naquele espaço mínimo em que vivíamos os quatro, espaço que hoje tem o tamanho da sala deste apartamento, nós não tínhamos nada. Mas tínhamos música.

Ela era servida como café da manhã por meu pai. A fartura era grande: música cubana, música latina, música brasileira e variações de Bob Marley. Se escutava de longe. Os meus primeiros segundos do dia, no nosso período mais difícil, eram melódicos.

Que saudade desse sabor de gente e amor que se fazia escutar.

Estética do frio histérico

Das loucuras de todos nós. Confesso que não gosto de andar de avião. Não gosto de sair de Porto Alegre de avião. Talvez porque sempre penso que vai acontecer alguma coisa. E como tenho sina de formação jornalista já fico imaginando como seria tratado o assunto pela mídia local. Hoje embarquei com um grupo enorme de dançarinos de música tradicional do Rio Grande do Sul que provavelmente iria participar de algum evento em outro país (pelas mochilas com bandeiras do RS e do Brasil). Já imaginava a manchete bairrista sobre os jovens – tão jovens – que com orgulho levavam nossas tradições aos rincões mais distantes e que por culpa de alguém (da empresa? do piloto? dos céus? sempre tem alguém culpado) não conseguiram chegar lá para representar a todos os gaúchos. Tragédia nacional, apocalipse bairrista… E a novela da provável cobertura sensacionalista segue na minha cabeça até a moça falar chegamos-no-aeroporto-Galeão-mil-graus-estamos-vivos.

querer

E confessar, sem pudor, que se quer algo. Querer mesmo. Um desejo de vida. Ir à merda. Ir. Encarnando os problemas. Colocando-os na carne. Não feito tatuagem. Não. Feito penugem, feito dobra, feito cicatriz. Olhar para o espelho, essa folha de papel, e dizer eu quero. Porque ser quem se é sempre vale a pena. Não, não é autoajuda. Estou para além da ajuda. A linha é um ponto. Confessar solidão, confessar dor, confessar amargor. Esse que não é verde nem quente. Um tango, a planta e a canção. Lá no topo da vida material olhar para o mundo e dizer eu quero algo daqui. Minha avó dizia, por favor, não me coloquem num asilo. Ela que sempre foi alegre chorou ao voltar do hospital. Na porta do apartamento que era dela. Que era alugado, mas era dela porque ali estava sua vida, sua decoração, seus enfeites, suas lembranças. Ali na porta ela chorou. E tremia de soluço como uma pessoa pequena. Ela que era gigante. E disse entre soluços que achou que nunca voltaria pra casa. Que temia o asilo. Temia a solidão. Ela disse eu quero. Como custa dizer o que se quer.

Grão de escrita

Um teto todo seu ou uma coragem de letras que emerge do sangue subdesenvolvido. Uma ânsia de revolução pela letra ou a calma da segurança da ficção. Minhas ideias sobre as condições ideias para a escrita são frágeis, são de alguém que não escreve. Talvez, como afirmam alguns, para uma boa lapidação das letras seja necessário tempo. Tempo mesmo, horas de sobra na agenda. Nada de compromissos, prazos e programas combinados. Para a escrita, dizem, é necessário espaço. Não necessariamente um teto, mas certamente um chão. Onde for. Café, praça, casa, banheiro ou biblioteca. Pra escrita, afirmam alguns, mais necessário do que tudo que é material, é preciso ter assunto. Uma história, uma memória, uma boa criação. Inspiração. Um sopro de incentivo dos céus, dos neurônios, processo ou religião. Já li em algum lugar sugestões sobre a necessidade de disciplina, regras, método. Um organizar de canetas, de papéis.
Todas são condições interessantes, mas se posso contribuir com essa imensa lista de idealizações feitas por escritores com minha experiência de não escrita, eu diria que as condições ideais para a escrita estão mais dentro do que fora. Estão na confiança em ser o que se é. Na liberdade de se permitir ver o mundo pelos próprios olhos e confiar nisso como fonte de escrita. Em certo orgulho sobre o trajeto e o destino pessoal. Em uma espécie de ideologia particular muito relacionada ao que se quer pro mundo, ao que se faz pro mundo, ao que se vive. Mesmo os escritores de vida mais miserável tinham em alguma medida um tipo de faísca por dentro que fazia emergir letrinhas, mesmo que viessem na forma de vômito, de sangue, de lágrima. A fluidez dos afetos, essa parece ser uma das principais condições para a escrita.