twist

A cambalhota dos trinta é como uma videocassetada em câmera lenta. Sim, é assim de brega e de ridículo. É nível Faustão no domingo. Aquela depressão profunda. É profundo. Quando vê, você tá sem chão, e quando vê, o chão tá em cima da cabeça e quando vê, mesmo mesmo, você já não sabe onde é chão e onde é cabeça. Depois depende. Se você é ginasta e estava preparada é vida que segue, mais uma cambalhota. Se você era uma pseudo-jovem sedentária a coisa fica mais parecida com uma visita ao hospital. Sim, haverá ossos quebrados, talvez sangue, dependendo do impacto. Mas haverá também risos. Não seus, obviamente, porque você vai tá doendo. Talvez você ria em algum momento, mas aquele riso nervoso que é o mais frequente aos trinta. E quando você acha que “já acabou, Jéssica”, não acabou não. Porque o que você não percebeu é que estava numa lomba. Lomba, ladeira, curva da morte, precipício, abismo. Aí você chama como quiser. Mas era uma coisa assim, inclinada. E que dava condições para que um objeto parado não siga parado. É coisa de gravidade. Não que seja grave, espero. Mas do peso das coisas. Tá ficando profundo esse texto. Mas não é. Porque o que acontece é que você continua girando. São várias as cambalhotas, uma depois da outra. Porque não tem nada que te faça parar. E isso é o mais legal e o mais terrível também. Nos trinta é assim, tudo poder ser legal/terrível, medo/esperança, desejo/morte. É uma cambalhota misturada com uma roleta russa que termina num duplo twist carpado. Que pra quem não é ginasta ou nunca assistiu uma olimpíada, é uma coisa impossível de fazer que apenas pessoas muito pequenas e musculosas são capazes de realizar. Não por acaso é um movimento que eu sequer consigo imaginar. Ou seja, não tenho o registro visual da manobra. O que faz com que fique ainda mais difícil sair de alguma forma ilesa. Tudo isso pra dizer que ainda estou girando e não sei onde isso vai parar.

trama

Este é um corpo. Meu corpo porque falo de dentro dele. Ele é um corpo qualquer. Mais um entre tantos. Ele tem um gênero, uma cor, um tamanho – e tudo isso muda um pouco todo dia, mas nunca radicalmente. É um corpo padronizado. Eu não olhava pra esse corpo antes. Em parte porque não gostava que olhassem pra ele também, em parte porque nunca o considerei como a coisa mais importante em mim.
Mas é pelo corpo que eu experimento o mundo. Meu corpo existe e se reafirma toda vez que alguém entra em contato comigo. Os cabelos fazem questão de existir e reclamar seu lugar. Este corpo todo demanda um espaço, é grande, largo, pesado. Por muito tempo tentei encolher o corpo e ele nunca me obedeceu.
Ontem parei em frente ao espelho e observei meu corpo. Sem adornos. Sem roupas. Dizem que há algo de transformador nessa ação. Uma chave que vira ao perceber que este corpo é tudo que tenho. Não é algo que posso oferecer. É ao mesmo tempo o espaço em que habito e a ferramenta que me dá condições de sobreviver. Em muitos sentidos é um corpo descartável. Um excedente. Um número pouco produtivo. Mas é um corpo saudável que fica inchado todo mês. Que sangra e cicatriza. Um corpo sexuado. Um corpo que até pode ser prazeroso. Fico abismada aqui dentro. Eu. Dentro desse corpo como uma prisioneira-construtora. Limitada pelo mundo, mas fazendo meu corpo todo dia.

Observo teu corpo e me pergunto: como é habitar esse outro corpo? Esse seu corpo de leitor. É possível saber/sentir a sua dor? O que posso esperar de um outro corpo que não o meu? Como confiar em um corpo que nunca permanece o mesmo?

Parece que o corpo é, também, uma trama (descontrolada).

inacreditável

Inacreditável é o nome de uma nova série da Netflix de investigações sobre violência sexual. Série forte, com longos oito capítulos e duas atrizes muito boas. Cheguei a comparar com The Fall, mas é completamente diferente. Não tem suspense. É uma costura policial sobre a dor de um grupo de mulheres que não se conhecem. Uma história “inacreditável”. Talvez o maior defeito seja o agressor. Porque na maior parte das vezes um agressor sexual não é um monstro, é uma pessoa qualquer, com uma rotina qualquer, uma família qualquer. Alguém que normalmente tem uma vida bem normal. O estuprador não é o monstro psicopata que a ficção gostaria de desenhar. Pelo menos não sempre. Mas entendo que um estereótipo pode ser usado como argumento. Um argumento bem fundamentado, até porque, no final das contas não é ele que importa nessa história.
São as mulheres que dão força para a narrativa. E umas para as outras. São as mulheres vítimas e investigadoras. São as mulheres vitimadas e justiceiras. É uma bela série sobre mulheres que passam por uma situação crítica. Fiquei um bom tempo pensando nas falas, nos gestos, na interpretação dessas mulheres. Foi um alívio ver ali representada a dor que conheço de perto, que já vi expressada em olhares e palavras de outras mulheres. Não conseguir dormir. Ter pesadelos para o resto da vida. Não conseguir confiar nas pessoas. Pensar em acabar com a própria vida. O medo de encontrar o agressor na rua. De reconhecer pelo cheiro, pelo perfume. Pelos olhos. Pela altura. Um medo constante. Uma grande impotência.
É difícil explicar as consequências dessa violência para quem nunca passou nem perto da experiência. Para quem sequer ouviu um relato de alguém próximo. É um exercício de imaginação. De vestir a pele do outro. Será realmente possível que você sinta a minha dor na sua pele? Sou capaz de sentir a dor de outra mulher? Quando encontrei pela primeira vez alguém disposto a falar sobre a violência que havia sofrido fiquei em choque. Era impensável articular daquela forma aquela experiência. E lá estava ela. Parecendo fortaleza. Se apropriando da própria história.
Existe todo um debate sobre o caráter indizível da violência. Mas talvez não exista algo inominável. Indizível. Talvez tudo caiba em palavras. Só que falar da violência é reviver a experiência. Talvez ao falar muitas vezes as coisas parem de doer, se acomodem de outra forma na memória. Mas talvez as palavras não sejam suficientes. Nem os gestos. Talvez a comunicação seja outra. Decisões da vida. Idas e vindas. Fugas. Encontros. Deslizes. Mágoas novas. Antigas alegrias revisitadas em sonho. Novos propósitos.
Nessa série, os policiais, os psicólogos, os assistentes sociais irão perguntar o que aconteceu e fazer o relato se repetir inúmeras vezes. Mas parece que o que fica da dor da violência se transforma na própria violência. Um ciclo de difícil fim. Para os autores é a justiça reparadora que representa esse desfecho, talvez porque toda série precisa de um final ideal. Mas talvez porque a vida só parece fazer sentido no discurso do bem contra o mal. Da violência contra a justiça. Mesmo seguindo essa linha dramática, a série não deixa passar batida a complexidade das relações e a ambiguidade dessas concepções de bem ou de mal.
Se o corpo das mulheres está em disputa são muitas as formas de atacar e também de sobreviver.

Nido

Sou uma mulher de ninhos.

As pessoas nem sempre entendem como é difícil construir um ninho. Exige força. Exige determinação. É preciso saber se situar. Encontrar os materiais corretos. Cada palha. Cada pedaço de madeira. Carregar um por um. O peso é grande. É preciso equilíbrio. E um pouco de noção de arquitetura. Mas criar um ninho é o que sei fazer. Me anido.

Depois? Outra história.

Desfazer um ninho já é bem mais complicado. Triste mesmo é ver ele ruir por um erro de cálculo. Por um capricho da natureza. Por maldade de alguém. Mas todo ninho se desfaz. E mesmo sem vontade, por vezes mesmo sem perceber, já estou fazendo outro. Demora. Demoro. Tem vezes que faço só pra deixar pra alguém. Então o processo começa novamente.

Añoro. Acuno. Anido.

Nunca gostei dessa característica. Queria peregrinar sem ficar reconstruindo casa em lugar ou pessoa. Mas não posso mais negar essa pulsão de construção.

palavras

Preciso gastar as palavras

Preciso gastar as palavras

Preciso gastar as palavras

Preciso gastar as palavras

Preciso gastar as palavras

Cassia. Casa. Lar

Preciso gastar as palavras

Preciso gastar as palavras

Preciso gastar as palavras

Preciso gastar as palavras

Demandas. Demandar. Mandar

Preciso gastar as palavras

Preciso gastar as palavras

Preciso gastar as palavras

Preciso gastar as palavras

Desapego. Desamparo. Desdém

Preciso gastar as palavras

Preciso gastar as palavras

Preciso gastar as palavras

Preciso gastar as palavras

Até.

A morte é a única saída da linguagem?

sombras e pesadelos

“Eu hoje tive um pesadelo e levantei atento, a tempo”.

Acordei no susto, com o coração na boca. Levantei pra deixar a água acalmar o corpo e voltei a dormir. Aconteceu de novo. Outro pesadelo. Tentei refletir sobre os significados, sobre as motivações, sobre as personagens desses sonhos. Lembrei de uma noite em que você me acordou ao passar a mão na minha testa. Era um toque suave entre as sobrancelhas. Você passava os dedos para aliviar a tensão visível do meu sonho. Talvez para evitar as rugas. O corpo conta histórias durante a noite. Mãos fechadas, braços cruzados, costas curvadas. A testa não mente. As linhas marcadas estão cada vez mais aparentes.

depressão. ansiedade. pânico.

Uma conhecida postou uma imagem nas redes com a frase: “o contrário da depressão não é a felicidade, mas a vitalidade”. É melhor estar vivo do que querer morrer. Parece uma mudança sutil, um deslocamento mínimo do olhar. Mas é, de fato, a mudança que te faz levantar da cama ao amanhecer. Já são meses de métodos, terapias, terapias alternativas, exercícios, sol, amigos, muitos amigos, acolhimentos. Ainda assim, vejo a depressão como alguém virando a esquina, logo atrás. Não é algo que te deixe por completo, não é algo que se cure. Vejo a primavera chegar com essa esquina quebrada. Essa é a sombra que me acompanha.

qual é a sua?

Aline Valek escreveu que “só é possível entregar o meu melhor a quem está disposto a acolher as minhas sombras”. Era um texto sobre companheirismo. Que palavra bonita: companheira. Acolher as sombras de alguém. Achava que isso era amor. Falaram que é neurose. Que o amor próprio vem primeiro. Que eu. Eu. Eu. Que lógica deprimente. Quando foi que acreditei nisso?

Ainda assim, é preciso aprender a não gritar. Sigo com os versos do poeta na cabeça. Aprender a não querer gritar. Aprender a não querer. Olho sua foto, a única que tenho acesso porque me protegi de tantas formas e mesmo assim você aparece com sua foto em algum lugar. Olho sua foto e vejo que quem botou o dedo na câmera te ama assim como você ama a pessoa a quem você olha nessa imagem. Sei que você levou essa pessoa até sua pedra e disse, olha, é aqui que quero minhas cinzas jogadas. Talvez porque você efetivamente queira que essa pessoa de agora jogue suas cinzas, talvez porque se falar pra várias pessoas talvez alguma se lembre de fazer isso no final.
É uma foto que contém um riso, uma alegria. Inevitável pensar que é o riso que eu não pude dar. Ela me faz rir, você disse. Eu queria morrer. Não por te deixar séria, mas porque naquele momento eu era pura sombra. Ninguém entendeu, nem eu, nem você. Tinha um abismo de interpretações no meio. Quando chorei, era eu tentando não me afogar. Ainda não sabia que devia aprender a ficar submersa. A não respirar. Por um tempo. Mas, de fato, só quero fazer rir quem queira acolher minhas sombras. Não foi você, não fui eu. Liniker está errado. Parcialmente errado. Amar é pra se corrigir. Mas não se ama sozinho. Não se cura sozinho. Vitalidade é relação. É levar nossas sombras para passear. Não só durante a noite.

“De repente a gente vê que perdeu
Ou está perdendo alguma coisa
Morna e ingênua
Que vai ficando no caminho
Que é escuro e frio mas também bonito
Porque é iluminado
Pela beleza do que aconteceu
Há minutos atrás”

nomar

O trompete na capa do caderno faz pensar. Um som se faz ouvir. Involuntariamente. Evito a distração. Por um segundo apenas.
“Nous sommes deux soeurs jumelles
Nées sous le signe des Gémeaux
Mi fa sol la, mi ré
Ré mi fa sol sol sol ré do
Toutes deux demoiselles
Ayant eu des amants très tôt
Mi fa sol la, mi ré
Ré mi fa sol sol sol ré do”
O francês da noite anterior nas músicas modernas pareceu familiar. Não pelo idioma, nem pela batida eletrônica. Mas pelo trompete da capa do caderno que faz pensar no filme. Les Demoiselles De Rochefort. Um clichê musical francês. Amores jovens, desamores intensos. Arte fazendo coração bater. O signo de gêmeos, tão controverso, tão difícil, tão próximo. Geminianos me povoam, me enlouquecem, me fascinam. Preciso vivê-los com moderação. Apenas quando estou bem. Eles são leves. Alguns seguram a tua mão até o final. Gostam de palavrear. Sonham tanto. São os pássaros que vejo passar na janela. Na noite intensa. Adentro. Penso no mar.
O poeta disse e eu desenhei: “é preciso aprender a ficar submerso”. Por um tempo. Um tempo se deixando levar pela violência do mar. Uma incerteza. Onde está o céu? Onde está a terra? Redemoinho. É preciso aprender a não gritar. E s p e r a r. Outra espera, não aquela da volta, mas uma nova. O mar faz pensar na violência. É natural. E esteve tão presente. “Depressão com aparência de férias”. Emicida parece ter olhado para a janela do décimo andar. O mar logo ali. Agora ele está distante. Não tanto para ser impossível, mas um pouco. O pouco de sempre. O mar surge na memória durante o banho. Água correndo pelo corpo, me limpando, me fazendo escorrer. Água do corpo. No corpo. Para o corpo. Tomar água durante o dia tem sido uma preocupação. Mais água. E evitar a que se insinua pelos olhos. B. me disse que sua maior conquista foi parar de chorar na terapia. Entendi na hora. Água e sal para curar. É preciso aprender a ficar submerso. Mas apenas por um tempo, poeta. Emergir diferente não é coisa de signo.