O circo na corda bamba

Respeitável público pagão! Vocês que avidamente folheiam este periódico (publicado no jornal Tabaré), um minuto de atenção! Está para começar o primeiro, o único, o magnífico, o magnânimo texto circense! Mas não vá se iludir com os malabarismos da leitura, bom amigo. Pois garantimos a veracidade das piadas e indicamos o bom proveito de uma pipoca para acompanhar o espetáculo.
Desfrutemos, agora, de alguns minutos juntos!

Ilustração - Camila Machado

Ilustração – Camila Machado

A cultura do circo – aquele circo de chão batido, arquibancada balançando e artistas acessíveis – vem sofrendo com a marginalização da arte circense. As milionárias companhias estrangeiras tomaram o mercado e as políticas culturais parecem não colaborar com os artistas. Para entender melhor essas questões tivemos uma séria conversa com o russo made in Brazil responsável pelo Circo Vostok: Alexandre.

Vai, vai, vai começar a brincadeira? Pois se tem charanga tocando a noite inteira fica até difícil de saber. É o que Alexandre comenta quando fala das dificuldades de se administrar um circo no Brasil. Ele nos recebeu dentro da tenda. Nos acomodamos nas cadeiras de plástico (substitutas obrigatórias das antigas arquibancadas) sob a gigantesca lona azul, estrelada em plena luz do dia. Tendo trabalhado desde 2001 nos Estados Unidos da América, o apresentador circense declarou que pretendia voltar de vez para o Brasil, mas já não vê possibilidade de continuar em nosso país. Com seu típico chapéu vermelho e trajando uma camiseta “Miami Beach”, o Sr. Vostok apresentou um panorama sombrio.

As dificuldades começam com o financiamento dos espetáculos. Nestes tempos de crescimento econômico verde e amarelo até mesmo grande artistas, como Maria Bethânia e Ivete Sangalo (grandes no tamanho de seu valor comercial, qualidade fica a critério do leitor), recorrem aos incentivos públicos para financiar projetos. Alexandre critica fortemente essa prática: “No Brasil não há incentivo e não há financiamento para os circos itinerantes. Existe sim um movimento muito modesto do Ministério da Cultura. Eles dão alguma verba para circos menores, para que possam subsistir, mas a modernização do circo envolve muito dinheiro e sem financiamento é impossível. O Cirque du Soleil é o que é pelo incentivo que recebeu do governo canadense. No Brasil o banco só empresta dinheiro para quem prova que não precisa de dinheiro.[1] E o material do circo é muito caro, tudo aqui é caro. Uma lona nova custa algo em torno de 400 mil reais”.

Com a experiência de mais de quarenta anos trabalhando na área, o Sr. Vostok definitivamente não vê possibilidade para a sobrevivência dos circos. “Parece que marginalizaram o circo no Brasil. As leis aqui são complicadas, grandes empresas com nomes fortes conseguem as verbas públicas. Mas o circo não entra, é barrado de cara. Existem casos de cineastas famosos que conseguiram verbas vultosas e nunca fizeram nada, nenhum filme. O dinheiro sumiu. Por que conseguiram? Porque têm um nome. O governo teve uma ideia muito boa, mas no final estão ajudando grandes espetáculos que já estão bem estruturados. Não há uma política
cultural para preservar o circo, então está cada dia mais difícil”.

Os empecilhos não estão restritos aos grandes investimentos. Até mesmo para conseguir um local adequado e montar o espetáculo a burocracia é grande e irracional. O perímetro necessário é de dez mil metros. Alexandre lembra que antigamente, grandes companhias familiares, como a Zaffari, cediam espaço para a instalação dos circos. Hoje essas mesmas companhias estão integradas à exploração imobiliária e calculam os valores comerciais locativos das áreas, tornando os preços proibitivos para circos modestos.

“O local que estávamos usando em Porto Alegre, perto do Beira-Rio, é da prefeitura. Mas há um conflito de interesses da administração. Você vai ao prefeito e ele está cheio de boa vontade, mas não depende dele. O terreno está sob os cuidados da Secretaria Municipal do Meio Ambiente. Ela por sua vez, se preocupa com o meio ambiente e passa a bola para a Secretaria de Obras. Lá eles dizem que quem é responsável pelo circo é a Secretaria de Cultura. Na Cultura eles alegam não ter verbas e nos passam para a Secretaria de Educação e por aí vai. Antigamente o prefeito autorizava e assumia a responsabilidade. Hoje eles não querem assumir a responsabilidade porque tudo é motivo de impeachment, de problemas políticos”.

A hipocrisia dessa atitude fica declarada quando a própria prefeitura resolve lembrar, depois que o circo já está montado, que ele é uma importante peça cultural. “Eles vêm todo dia pedir ingresso para crianças pobres, para trazer escolas. Nós sempre dávamos. Mas faz dois meses que resolvemos não atender mais, porque eles também não nos atendem. Eles pensam que a obrigação é nossa. Como se o artista tivesse, sozinho, a responsabilidade de levar cultura para toda a população”.

Além dos desafios do sistema burocrático, o circo também tem dificuldades em divulgar sua chegada às cidades, pois até mesmo a imprensa tem colaborado com o processo de marginalização das artes circenses. A chegada de uma turnê já não é objeto de reportagens e entrevistas nos grandes meios de comunicação, Alexandre acusa os jornais pelo abandono. “Hoje eles querem dinheiro. O grupo Zero Hora, na época do Sirotsky, ajudava, dava divulgação. Agora não, só colocam no roteiro do jornal se a gente pagar. É obrigação do jornal botar os espetáculos da cidade no roteiro. Mas nós tivemos que pagar. Pagamos uma média de quatro mil reais por semana para a Zero Hora. Vai reclamar do grupo RBS? Não tem jeito. Por parte da imprensa não há mais aquele apoio ao circo. Eles apoiam os grandes eventos. Hoje toda imprensa se ocupa com Madonna, Cirque du Soleil, Disney on Ice, eventos para classe A, que paga caro”.

A proibição de animais nos circos também afetou grande parte do entretenimento proporcionado pelos espetáculos. Alexandre reconhece que as acusações de maus tratos eram verídicas em muitos casos, mas ele também questiona a rigorosidade dessa proibição. “O povo é que gostava dos animais. Se proibissem feras, ok. Mas proibir o mágico de tirar coelho da cartola, proibir patos, brincadeiras com pombos, números de cachorros amestrados… Nós tínhamos 18 cavalos, ainda temos nos EUA, mas aqui não pode. No Brasil permitem rodeios, permitem Jockey Clube, mas nós não podemos ter número de cavalo? Cachorros amestrados aparecem todos os dias na televisão, mas no circo não pode. E o povo quer, o povo pede. Principalmente no interior, o povo vinha o dia inteiro para ver os animais”.

O circo ainda é a alegria de viver?

Depois dessas palavras apocalípticas ficou difícil visualizar um futuro para o circo. Aquelas estrelas num pretenso céu azul não teriam razão de existir. A arte simples de fazer rir e maravilhar parecia prestes a terminar. Nessa depressão, propomos uma tentativa de falar com algum dos artistas, palhaços por profissão.

Roger Costa foi chamado aos gritos, garoto, pulou correndo do picadeiro e se juntou a nós. Treinava seus malabarismos sem cerimônia. Pediu desculpas, parecia nervoso. Contou sua história, 18 anos e mais de 15 circos no currículo. Os olhos brilhavam ao falar de sua profissão. Filho do circo, neto do Circo. Roger diz que sente prazer em rodar o mundo, em subir no picadeiro e tirar sorriso do público. “Eu não troco minha vida de circo por nenhuma outra. Se alguém vier e propor: te dou 15 mil pra você ficar sentado, parado, sem fazer nada todo mês, eu não topo. Minha vida é essa. Se fosse por querer só o dinheiro, poderia ficar na casa da minha mãe. Mas eu não quero, eu gosto da vida itinerante. Sem o figurino e o aparelho eu não sou nada, sou uma pessoa normal. No picadeiro você se transforma”.

O malabarista não parava de gesticular e sorrir entre uma resposta e outra. Contou que sempre fica nervoso em uma estreia, que pretende ter o próprio circo um dia, como seu pai. Falou sobre os inevitáveis tombos e frequentes ensaios. Relatou sua rotina, de pintar o rosto e vestir o uniforme verde e amarelo. Roger vê futuro no picadeiro, simplesmente por amar esse mundo. “Meu objetivo é obter meu próprio circo. Vai demorar ainda, mas eu vou conseguir”.
Nos sentimos mais leves depois de conversar com o garoto. Afinal, uma arte tão antiga e quase desconhecida para a maioria das crianças, já tão habituadas às interações eletrônicas, não tem porque acabar.

O próprio Sr. Vostok concluiu que “o circo desperta na população um sentimento de alegria, o pobre quando vê o circo chegar fica contente. Então depende da cultura. Muita gente vem ao nosso circo porque se lembra de que quando era criança o pai trouxe. Se o pai não trouxer o filho na marra, a criança prefere ficar em casa vendo televisão ou na internet. Todo adulto tem uma lembrança boa do circo. Mas a criança não está acostumada. Eu já vi família na porta do circo brigando e a mãe dizendo assim: se você não entrar no circo eu não te levo no shopping depois. É difícil quebrar essas barreiras, é cultural”.

É bem verdade que o ranzinza Sr. Vostok pode ser pessimista, e o futuro dono de circo um jovem iludido. Mas entre as possibilidades que se apresentam, o apocalíptico fim da arte circense e a contínua obra familiar de encantar pessoas mundo afora, nós preferimos acreditar nas improváveis manobras do malabarista.

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