Editorial – Defesa Pública da Alegria

Porto Alegre despertou? Será que o efeito anestésico do medo finalmente cessou? O que podemos afirmar é que enfim os indignos e os indignados (identificados por Eduardo Galeano) mostraram suas caras depois da manifestação pela Defesa Pública da Alegria.
É comum, em cidades pequenas, que um evento domine os tópicos de conversação. Normalmente são banalidades, mas desde que o Tatu da Coca-Cola foi desinflado no Largo Glênio Peres e a Brigada Militar e a Guarda Municipal encenaram uma repressão digna de 1968, Porto Alegre passou dias de conversações monotemáticas.
A noite do dia 4 de outubro era de festa contra a privatização dos espaços públicos, contra as políticas que criminalizam o trabalho dos artistas, contra a remoção forçada de famílias graças às obras da Copa, contra a política marqueteira das eleições, contra o descaso com ciclistas e a confusão que a prefeitura parece ter com o termo revitalização, que para eles é sinônimo de elitização.
Como sempre, o debate sobre o assunto foi superficial. As mídias partidárias, ou grandes empresas midiáticas, cobriram de preconceitos suas matérias. Lasier Martins bradava ignorâncias repetidas nas redes sociais.
Contra o quê? Por que gritam? Quem são? O que querem? A quase nenhum jornalista lhe passou a brilhante ideia de propor essas perguntas ou de aprofundá-las. Eles obtinham as informações dos policiais e essa era a verdade absoluta.
A Defesa Pública da Alegria é um movimento que reúne diferentes coletivos, artistas, ativistas e cidadãos engajados ao que pode ser resumido como defesa do que é público. Eles convocaram a manifestação em forma de festa e dessa maneira conseguiram mobilizar mais de 1.500 pessoas insatisfeitas com os rumos da cidade. Assim se formou este grupo autônomo e apartidário que entende que “um corpo vivo numa praça é infinitamente mais potente que um voto”. Prova disso é a excessiva repressão policial aos manifestantes em plena época de eleição. Uma polícia que não modificou sua postura com a retomada da democracia no final dos anos 80.
É um fato internacionalmente discutido: a ditadura militar nos legou um dos aparatos repressivos mais truculentos e brutais do mundo. Em maio deste ano o Conselho de Direitos Humanos da ONU recomendou o fim da polícia militar no Brasil, dada a violência e a falta de controle que se tem sobre seus agentes. A existência dessa entidade repressiva é tópico proibido na sociedade do medo. Isso porque o extermínio das comunidades mais pobres passa longe dos olhos de quem vive nas áreas centrais das cidades brasileiras. Mas quando um confronto violento ocorre no centro é impossível fechar os olhos e fingir que não aconteceu.
Entramos então num momento suspenso entre o medo e a vontade de debater. E nesse contexto é papel de qualquer jornal escolher de que lado se postará.
José Saramago afirmou em um de seus discursos que existe apenas uma coisa que não pode e jamais é discutida em nossa sociedade: a democracia. Ela é o bem absoluto e inquestionável. Mas qual democracia? Quão democrática é a democracia representativa? Esses também são questionamentos proibidos e os que se atrevem a ocupar uma praça para gritar que está tudo errado, negando os vícios da democracia representativa, são tidos logo como vândalos, como marginais, como comunistas, como desocupados, como ditadores. Esse é o cidadão combatido por representar o perigo de transformar a política em prática cotidiana.
Parece um consenso essa visão conservadora de cidade legitimada por 65% da população porto-alegrense. Muitas dessas pessoas vivem como se a cidade fosse a mera paisagem de seus percursos, esquecendo-se de que as calçadas foram feitas para o Homem e para a Mulher. Onde se deve viver e experimentar essa estranha sensação de compartilhar um mesmo tempo em um determinado lugar com tantas pessoas diferentes. Não foram apenas os defensores da alegria que explicitaram esse desejo, no dia seguinte moradores da Vila Nazaré bloquearam a Avenida Sertório em protesto contra a remoção da comunidade em função da Copa. Na semana seguinte, vendedores do comércio popular se recusaram a silenciar ao ver seus produtos confiscados por um Estado que finge dar oportunidade e fiscaliza apenas os mais pobres.
No já tão antigo editorial da primeira edição deste periódico nós afirmávamos que “num tempo em que a alegria rareia, o Tabaré gargalha”. E seguimos rindo a plenos pulmões do ódio ignorante e do medo indigno. Esperando que compartilhes dessa mesma esperança cidadã.

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  1. Pingback: Arte, alegria e gente reunida em defesa dos espaços públicos de Porto Alegre

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