Que época para se viver!

Era uma vez um blog modesto que não recebia comentários. Foi então que algum amigo com ótimas intenções compartilhou um link e nas horas seguintes o tal blog ficou infestado de reaças raivosos.
Mas a internet é assim mesmo, não é? Espaço para todas as opiniões e comentários (dos que têm acesso, pelo menos). E surgiram também comentários interessantes, construtivos, correções importantes como a lembrança do valoroso Movimento Negro que também luta há muitos anos nas ruas.
Pessoalmente, “não tenho nada contra reaças, até tenho amigos que são”. Só que é evidente que não lutamos pelas mesmas causas. Ou seja, quando me falam na união de todos os manifestantes eu fico realmente feliz, adoraria que tudo se transformasse num grande elo de amor pelo bem comum. Mas não é bem assim que a banda toca e não podemos ser ingênuos.
Todo protesto precisa ter objetivos claros. Isso é necessário não só para que esses objetivos sejam alcançados, mas para a resistência de quem participa dessas manifestações. Nada se sustenta apenas no ânimo. Bom, talvez algumas coisas, mas acredito que essas manifestações podem rapidamente enfraquecer sem um foco claro.
Essas metas também são importantes para que todos saibam os motivos da manifestação (óbvio). É lindo ver que todos querem sair às ruas e reclamar seus direitos. É obviamente legítimo, é obviamente legal, e apenas alguém antidemocrático diria o contrário. Todos querem um Brasil melhor. Mas acontece que esse “Brasil melhor” não é o mesmo pra todo mundo.
Muitas pessoas que comentaram o texto abaixo sequer são reaças. Sim, o aumento da manifestação aconteceu porque as pessoas perderam o medo de participar ativamente da vida política do país, e isso é crucial para o desenvolvimento da nossa jovem democracia. Isso não faz de quem tinha medo, um reaça. Vou tentar ser mais clara:
A pessoa que apoia a Cura Gay não defende o mesmo Brasil que eu e grande parte dos movimentos das manifestações. A pessoa que acha que o Estado deve ser mínimo não quer o mesmo Brasil que eu e a maior parte dos movimentos das manifestações. O homem ou a mulher que acredita que bandeiras de partidos devem ser proibidas nas manifestações não compartilha dos meus ideais democráticos de liberdade de expressão. O milico que escreveu uma carta ameaçando um golpe militar não quer o mesmo Brasil que eu. Os neonazistas que estão participando das manifestações não defendem os mesmos ideais que a maior parte da população defende. O grupo que ao ver alguém escrevendo palavras de ordem em um muro começou a gritar “favelado, favelado” (aqui não julgo o ato, mas sim as palavras de repúdio) deixa realmente claro que não luta pelo mesmo fim de preconceitos que eu. O homem ou a mulher machista que defende uma moral excludente não quer o mesmo Brasil que eu e muita gente que tá na rua faz muito tempo…
Então qual é o país que todas essas pessoas misturadas estão defendendo? Alguém que defende ideologia, ideais, preconceitos e crenças opostas (não diferentes, opostas) às minhas está caminhando nas ruas ao meu lado. Mas é necessário deixar claro que nós não estamos do mesmo lado.
É uma situação realmente difícil, pois como disse um amigo – O que fazer quando aqueles que marcham do teu lado são tão fascistas quanto os policiais?
Este é um fenômeno novo e está sendo fortemente disputado. Todos querem aproveitar esse momento de euforia popular: mídia, governos, políticos, reaças, movimentos sociais… O que fica evidente é que, agora, mais importante do que estar nas ruas, é deixar claro os teus motivos, os teus objetivos e ao lado de quem tu caminhas. Principalmente para tentar não ser usado por ninguém.

Em minha opinião: foco no transporte (e contra a repressão policial).
E para quem ainda não entendeu porque se manifestar contra a corrupção é um ação despolitizante vai o link.

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10 thoughts on “Que época para se viver!

  1. Natascha, simples, didático, sensacional. Concordo com a necessidade de explicitar posições e, porque nos manifestamos, o que queremos e de que forma queremos. Também concordo com o foco no transporte. E, para lembrar um pouco – Contra corrupção elegeu Collor – reforçando o que disseste.

    Aproveito para levantar uma questão, que já levantei em meu face (Juço Nunes) sobre o cartaz”Quem vandaliza não me representa”:

    Não queria, mas não posso ficar quieto. O movimento é sem dono(direção), as plataformas de luta são as mais diversas, sabemos que no Brasil existe uma classe numerosa de pessoas que nada tem a perder, então, o vandalismo pode não representar a maioria, mas faz sim parte deste mesmo movimento. E aí temos um dilema: como canalizar o vandalismo para uma manifestação pacífica sem direção e pontos concretos de luta? Devemos “enquadrar” o vandalismo? Todos sabemos que quem não tem nada a perder sempre é mais agressivo. E agora? Os vândalos podem contra-argumentar que quem destrói é o sistema, com sua corrupção, com sua polícia que só atua em cima dos desprotegidos, com seu sistema de saúde ultrajante para as camadas mais pobres, para o desdém do sistema em relação a qualidade de vida mínima das comunidades carentes (energia, esgoto tratado, água potável, transporte barato, escola), etc, etc, etc… Não é necessário defender o vandalismo, mas podemos compreendê-lo

  2. Eu realmente gostei deste texto… Não, eu não sou reacionária… Mas rótulos me incomodam… Naquele momento, seu texto anterior me incomodou… Por que? Porque sim, a marcha também era “deles”, dos policiais, dos neonazistas, e de todo mundo que estivesse contra a mesma coisa… Porque a gente pode não concordar em tudo… Mas a gente pode concordar em alguma coisa e brigar juntos por ela… Porque ninguém é imutável… As pessoas podem mudar de ideia… Inclusive eu e você… Hoje a gente está de um lado e amanhã podemos estar de outro…
    Foi emocionante ver tanta gente saindo do sofá e indo prás ruas… Hoje será aqui no interior e mesmo o aumento tendo sido revogado a galera tá indo prá rua… O povo tá descontente… Cada qual por seu motivo… Minha maior insatisfação hoje é a saúde pública, da qual minha familia dependeu ano passado e vimos a precariedade de perto, vimos a dor e o sofrimento de seres humanos implorando ajudam, sem conseguir… Se hoje tivesse uma manifestação pedindo melhorias na saúde, eu não me importaria em marchar ao lado do próprio Feliciano… afinal, ele também precisaria de hospitais de qualidade e com ele viram os que o apoiam…
    As ruas não são deles, nem nossas… Ou “nós” apoiamos uma democracia onde todos tem direito de se expressar ou “nós” não estamos do mesmo lado… Mas “nós” queríamos que revoguem o aumento… Então, nesse aspecto “nós” estivemos do mesmo lado… Daí a nossa luta juntos foi válida… Agora, vamos marchar separados nas questões que discordamos…
    Entende o que eu quero dizer?

    • Entendo sim. E é lógico que sim. A questão é justamente essa, estão tentando usar as manifestações e não podemos nos deixar enganar. Não estou criticando quem pensa diferente, mas sim quem defende o oposto – onde sim existe enfrentamento. Nós não queremos o mesmo Brasil e não vou servir de massa de manobra pra direita. É basicamente isso.

  3. Mas não seria essa diversidade a característica de uma sociedade. Ser livre não é poder pensar, escolher e decidir? Se há protestos e há apoios necessariamente e felizmente não serão uníssonos no pensamento, mas estarão aumentando até a ideia inicial de “liberdade”, pois se estará educando e permitindo que o livre pensamento chegue até onde não consegue, se o “medo” não nos deixa permitir, que pelo menos nos fosse permitido, através e um nariz de palhaço e com cartaz contra a corrupção, exercer essa mesma liberdade que tanto voce quer, Mas saiba, às vezes, há lutas com ações que são mais eficazes do que as palavras de ordem ou posição política. Vemos e muitas vezes “reaças” que mantém com a ajuda da sociedade : centro de tratamento de dependentes químicos, idosos, criança abandonadas, comunitários, creches. E não fazem parte de movimento legalizado algum, apenas usam de sua liberdade de pensamento e colocam em prática suas ações. Por isso , acho que as vezes não enxergamos a verdade como ela é e sim como queremos que ela seja. Mas isso não a torna única.

    • Caridade não é a resposta para os problemas sociais, pelo menos na minha opinião. E não é uma única verdade, é um posicionamento, uma opinião. Não espero que todos concordem comigo, porque acredito na diversidade. O que não aceito é ser usada de massa de manobra pela direita. Não podemos ser ingênuos e achar que é tudo pelo bem maior (que bem? quem define o que é bem?). Não é, existem muitos interesses em jogo.

      • Por isso que existe um pensamento popular e criado pelo “costume”, que diz: andorinha sozinha não faz verão. Aceitemos essa indignação como apoio e esqueçamos a ideia de braço de manobra, por que sem estes “reaças”, nada seria nada…

  4. As pessoas terem se posicionado contra a situação do país, independente do que acreditam, foi muito mais importante do que assumirem uma posição concreta a favor de um ideal.
    Dizer que somos contra a corrupção é importante para alertar os políticos que apesar das aparências, uma hora o povo reage contra quem nos trata como idiotas diariamente, sem nem ao menos tentar esconder ou ter vergonha do que faz.
    O importante agora é estar nas ruas e nas mídias. Os motivos são construidos e moldados com o andar da carruagem (e agora já vemos isso tomando uma forma através das “5 causas” propostas pelo Anonymous). Estamos dando um primeiro passo após 20 anos de morosidade, onde as pessoas estão reaprendendo a se manifestar e assumir uma posição.
    Acredito ainda que foi justamente essa falta de causa ou o talvez o excesso de causas que gerou o poder necessário para unir tantas pessoas com pensamentos diferentes.

  5. Esse segundo texto foi mais esclarecedor. No entanto, queria fazer uma pergunta: xingar de “reaça” todo mundo que não tem a mesma ideologia que vc, não é, por si só, tão despolitizante quanto falar “sou contra a corrupção”? Alguém se auto-entitula “a favor dos reaças”? Se alguém é favor do Estado mínimo, por exemplo, vc tem duas opções: apresentar argumentos válidos e sérios contra o cara, ou xingá-lo de “reaça” “despolitizado” “elitista” “de direita” etc etc etc. Se continuar optando pela segunda opção, vai estar fazendo um desfavor para o debate político. Acho que é isso o que vc acabou fazendo no texto anterior.

  6. Negócio interessante é que todos querem mudar o mundo, mas ninguém quer ajudar com a louça do jantar!

  7. As manifestações são expressão da insatisfação popular… não é partidaria por causa disto, e embora alguns tenham as agendas especificas diferente dos demais, a grande maioria ta junta pelo descontentamento em relação a corrupção apesar de não ter nenhuma ideia real do q fazer contra isto.. agora é proibido ser descontente e expressar isto?

    É apartidario pq ninguem ta apoiando/cobrando algum partido por uma solução.. tao cobrando acoes, nas quais cabem aos partidos tomarem iniciativas em pro disto.. Não existe direcionamento politico, mas nao descarto que grupos venham a beneficiar politicamente do momento, ai vai ser de quem conseguir responder melhor ao anseios da população neste sentido, seja de direita ou de esquerda…

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