Jasmim na minha janela

Há anos não redijo linhas honestas. Tampouco são muito úteis estas que agora aparecem no cursor, ainda assim. Ainda assim gostaria de escrever sobre esta madrugada. Esta única madrugada, esta madrugada marcante, que talvez amanhã eu já nem lembre, mas que no momento atual em que meus dedos brincam no teclado, existe potente, avassaladora.
A madrugada é a parte mais Che Guevara dos sonhos, disse o cantor uruguaio. A madrugada é revolucionária, provocadora, transgressora. A madrugada mata e morre por causas que ela mesma justifica. Esta noite não morri e também não matei. E ainda assim, algo está acabado.
O cheiro de jasmim me espanta. A janela aberta e a noite densa. O cheio de jasmim penetra e me propõe um diálogo. Ele sobe do jardim tantos metros abaixo, sobe com o vento ou sobe porque é de sua natureza subir. Aqui na minha janela aberta, a única janela aberta entre tantos prédios e condomínios, é madrugada e o jasmim é um mistério. Não apenas pela capacidade de subir tantos andares, mas porque todo jasmim morreu no dia 2 de maio. Nesse dia o perfume parou de existir. Nesse dia eu parei de procurar sinais na madrugada.
Trabalhei como qualquer um e isso me fez aguentar as noites. Esta noite que se transforma em dia agora ilustra minha janela. E é exatamente como quando eu tinha apenas algo como quatorze ou quinze anos. É exatamente como quando eu passava a noite lendo, porque o livro era muito bom ou porque a companhia de algum personagem era tão importante que a noite também se transformava nessa madrugada que vira dia. E algumas vezes eu olhava pela janela e sentia um prazer injustificável de estar acordada entre tanta gente apagada, entre tantos edifícios. Era muito prazeroso ver o dia nascer enquanto algumas pessoas eram obrigadas a dormir para acordar e trabalhar. Era prazeroso ser o oposto disso tudo. E hoje eu senti novamente isso. Essa parte dos sonhos. Por mais que o trabalho tivesse me forçado a esse estado trêmulo de fome e sono e cansaço e incapacidade de dormir.
Os pássaros cantam com força e a chuva é leve, mas persistente. Já não sinto o cheiro de jasmim, foi um diálogo curto. Uma passagem do dia 2 de maio por este quarto. Porque eu chorei e minhas lágrimas são justificadas. Porque hoje é o fim de um ciclo, de minha juventude, de tudo que eu chamo de vida. Hoje termina e o cheiro de jasmim comprova isso. Esta madrugada nublada com um céu quase rosa me confirma. Hoje é o fim de um sonho intenso que tive.

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