O lenço azul

Atei o lenço à cama. Com cuidado, dei dois nós. O lenço azul marcado por listras mais azuis. Não saberia dizer quando começou. Anos já se passaram. O lenço é minha âncora. Prendo-o para não me perder. Finco minhas raízes em forma de lenço. Tudo muito simbólico, é claro. Ainda assim, jamais poderia mensurar a importância desse gesto.
Anos atrás, ávida por outro céu e outro horizonte, parti em uma viagem de alguns meses. Grande passo, primeiro passo. O nervosismo que antecipa a partida chegou forte, pensei em desistir. Encontrei o lenço, não me recordo bem de que maneira ele parou em minhas mãos. É um lenço comum, um objeto qualquer.
Quando cheguei longe e encontrei uma imensidão de altitudes e desertos me senti a esmo. Navegando solitária em terra dura e quente, entre vulcões semi-adormecidos e horizontes muito brancos. Abri a mala no quarto pequeno e encontrei o lenço. Me atei à cama, criei meu próprio conforto, meu porto, minha parada. Hoje posso fazer andanças, me perder em morros e vielas de um centro movimentado, já estou novamente ancorada.

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