Um domingo incomum

Leda acordou cedo naquela manhã de domingo. Vestiu seu roupão para conter o frio e esquentou a água para seu chá matutino. Ela sabia que seria um dia incomum. A noite foi atormentada por pesadelos, por inquietações. Se revirou na cama como fazia quando ainda era adolescente e a expectativa da vida futura não lhe permitia dormir, apenas sonhar. Leda lembrava muito bem a quem recorria nas madrugadas frias daquela pequena cidade para conversar. Tantos anos passados e ela ainda conseguia se lembrar do aroma do quarto, do calor da lâmpada acesa, do amarelo inundando o ambiente escuro. Leda estava com os olhos fechados, rememorando, quando a chaleira anunciou o ponto final de quentura da água.

Era uma mulher sólida. Assim fora definida por seus colegas de trabalho em uma fracassada tentativa de festejar seus vinte anos de serviço. Leda sabia muito bem que não era invejada, sequer admirada por seus pares. Os mais jovens a tratavam com um respeito carregado de lástima. Sempre podia perceber os segundos de hesitação, as opiniões não expressadas, os olhares enviesados. Apesar da tentativa de ignorar o que os outros pensavam sobre ela, Leda sentia uma raiva contida em sua desesperança e indiferença. Há mais de vinte anos fora obrigada a ficar na pequena cidade e cuidar dos pais que envelheciam requerendo cada vez mais atenção. Quando sua mãe foi internada pela segunda vez, Leda percebeu que deveria desistir de qualquer sonho de mundo. Ela precisava ser a rocha sólida, a voz da razão, a filha esperada.

O sol sequer apareceu naquela manhã. Leda sabia que a chuva não era um sinal, mas não pôde evitar a sensação de predestino que o domingo chuvoso proporcionava. Ela refletia enquanto mastigava suas bolachas champagne e tomava o chá preto com leite. Esperou até que os sinos da igreja anunciassem o começo oficial do domingo para sair de casa. Precisava comprar comida, um cobertor extra e uma luminária. Não saberia justificar a demora em cumprir tarefas tão ordinárias, mas deixou para fazer as compras na manhã do domingo.

O mercado estava praticamente vazio, poucos funcionários com os olhos cheios de sono abriam lentamente os caixas e se preparavam para mais um dia de exploração. A população da pequena cidade havia celebrado o funcionamento dominical do mercado, mas os empregados tomaram a nova medida com preguiçosa resignação.

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