Relatos de trânsitos*

Primeira marcha. Acelera. Segunda marcha. Para. Sinal fechado. Buzinas a ruir. Primeira marcha. Acelera. Para. Quase bate. Buzinas. Curvas. Trânsito travado. Todos os dias a mesma rotina. O motorista cansa de transitar pelos mesmos caminhos. Responsável pelo transporte. Responsável pelas vidas. Responsável pelo fluxo. Cansado.

Leandro Rangel escuta música enquanto dirige. Evita o pesar do tráfego. Evita o pensar no trânsito. Um quilômetro de cada vez. Louvado seja o Senhor. Jesus amado. A graça do Senhor. Baladas de sua estação de rádio. Leandro canta e ora. Ora para que o dia termine. Cansado das vias congestionadas. Fatigado pela pressa. Motorista, mas passageiro na vida dos transeuntes. Atravessa de Leste a Oeste. Vai pelo Centro e pelo Sul dessa cidade que vende maravilhas. Leandro vive o trafegar carioca.

São mais de trinta anos de vida. Poucos de manobras próprias. Parece tranquilo, esconde o estresse. Leandro conta seu passado como passatempo. Um mundo de histórias entre sinais fechados. Viajante, já atravessou outras estradas. Também parou horas em outras esquinas. Tudo antes de pilotar ônibus. Na juventude, jogou esperanças no exercício militar. Serviu. Sim, senhor. Prestou serviço. Foi milico. Um passado presente. Uma memória que prefere não alimentar.

Brasília, Curitiba, Porto Alegre. O serviço é federal. Outras estruturas, outras cidades. Um posto que sempre soube preservar. Veio então a grande oportunidade. Uma ação militar. Uma ação de paz. Um mundo a desbravar. Era 2005, clareia ao relatar: Nações Unidas, missão exemplar, orgulho nacional. Os que agora procuram em nossas terras uma terra sentiam então o gosto do nosso punho militar. O Haiti não é aqui. Haiti é longe. Está nos olhos dos imigrantes e na vida dos migrantes. Haiti é para onde foi o motorista trabalhar em missão de paz.

Cautela ao alumbrar o passado. Leandro viveu seis meses na ilha. Diz que “tem coisa que quero esquecer. Tirar da cabeça. Nunca mais pensar”. Relata com dor que não há água potável. Não há saneamento. Quase toda população tem alguma doença grave. Conta que os corpos das pessoas mortas jaziam pelas ruas. Um país de jovens pela guerra, jovens pela fome, jovens pelas doenças mais básicas. O motorista não quer se lembrar de um mundo sem infância. Sem brincadeiras de rua ou futebol. Todos inseridos no mar de violência.

Fica mudo por um tempo. Pensa ao manobrar. Nunca vai esquecer o que perdeu por lá. Não foi somente a inocência de crer. Crer em paz, crer em militar. Perdeu uma amizade. Morta por fuzil. Um tiro entre o olho e o nariz. Aponta exatamente o lugar. Morreu nas ruas. Um fuzil nas mãos de uma criança que jamais foi criança. Nas mãos de um sobrevivente. Guerreiro de mil guerras. Dez anos tinha. Acertou bem ali, parte vital. Seu amigo foi morto por um menino de dez anos armado com um fuzil quase de seu tamanho.

Só Jesus. É só Jesus pra nos ajudar. Nesse mundo cão, sem infância, sem água, sem chão. Um povo destruído rompeu algo no motorista contador. Nunca mais foi o mesmo. Recebeu outras incumbências. Depois de seis meses no inferno foi mandado de férias para Nova York. Nada fazia sentido. Largou o uniforme camuflado. Deixou de lado o seu fuzil. Pediu um tempo, um médico, uma oração. Foi trafegar pela cidade, abrindo passagem para outras histórias. Agora quer ser policial no Rio de Janeiro. É mais tranquilo, diz Leandro. Mais tranquilo do que manobrar a vida dos outros sem saber bem o motivo de tudo isso.

*Texto publicado no Zine Travessias.

Travessias

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