Cordão umbilical

Ela me disse que sabia como era difícil cortar o cordão umbilical. “É doloroso”. Ela disse isso me contando suas histórias de passado. Eu escutei sem entender. Não pensava que alguém ainda sentia essa dor lá pelos quarenta. Achava, ignorante, que isso se corta no parir. Acontece que uma metáfora não deixa de ser menos real, ou sentida, por ser metafórica. Até aqueles vinte e poucos evitei olhar para meu próprio umbigo, achando que era coisa de narciso, coisa de maluco. O pior foi perceber que o tal cordão não apenas permanecia forte, mas que me envolvia por completo, tal qual cobra amazônica. Gigantesca conexão invisível. Eu me alimento dela que se alimenta de mim.
Ela me perguntou se eu não achava doloroso cortar o cordão umbilical. Eu ri dessa pergunta. Como assim cortar? É coisa de médico fazer isso. Não pensei, infantil, que eu precisaria tomar qualquer atitude. Acreditava que a vida se encarregava disso, que distâncias, que relações, que caminhos e decisões. Não lembrava o principal, o que me compõe, o que me faz existir: palavras.
Em casa nunca fomos de usá-las para olhar umbigos. Elas eram exploradas para discutir futuros, mundos, conjunturas. Nunca para si. Apenas para se. Improváveis sonhos, longínquos planos, distantes geografias. O que é próximo dói. Melhor olhar lá, horizonte imenso. Nunca pensei que palavras serviam como armas para cortar o que nascia com a gente. Ainda mais tarde percebi que não apenas as palavras precisariam ser usadas, mas que uma escuta se faria necessária.

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