Não escrita

Por algum tempo fiquei me questionando sobre o silêncio dos últimos anos na minha escrita. Essa questão nunca recebeu uma resposta satisfatória. Ela existe e se faz constante porque escrevo quase que instintivamente desde adolescente mesmo sem saber escrever direito e sem querer escrever por algum motivo maior. Mas já faz alguns anos que não tenho feito mais do que escritas burocráticas, pagas, exigidas em troca de dinheiro. O que mudou?
Já acreditei ser um sintoma da maturidade essa falta de letras. Também pensei que era falta de tempo, falta de um lugar apropriado para escrever, falta de dinheiro. Inventei desculpas. Pensei que já não tinha o que falar. E isso ainda me angustia. Talvez eu não tenha mais nada pra falar mesmo. Ou nenhum assunto que eu já não saiba da existência de alguém que falaria muito melhor ou com mais propriedade. Talvez escrever seja ter essa coragem de falar algo mesmo sabendo que outros falam e falariam muito melhor. Não sei.
Talvez o que mais me preocupe nesse não escrever seja o medo na hora de juntar palavras. O medo do outro. E principalmente, outro grande motivo de angústia, o fato de ainda não saber por que penso as coisas que penso. Tive um professor que mesmo cansado de falar com adolescentes desinteressados uma vez disse que pensar criticamente era sempre questionar e tentar entender por que pensamos da maneira como pensamos. Não é uma questão simples com uma resposta óbvia: sou fruto deste momento histórico. Mas também é. Talvez seja algo contido nesse individualismo extremado que me inquiete no sentido de já não conseguir escrever por não poder responder essa pergunta.
Penso como penso porque sou branca em um país extremamente racista. Penso como penso porque fui pobre em um país extremamente desigual. Penso como penso porque fui filha de imigrante. Penso como penso porque migrei quando criança e voltei a migrar. Penso como penso porque a fronteira sempre foi um bom destino pra mim. Penso como penso porque nunca fui a menina mais menina que se esperava. Penso como penso porque expresso minha sexualidade. Penso como penso porque sou mulher num mundo absurdamente machista. Penso como penso porque tive oportunidades educativas. Penso como penso porque sou filha dos meus pais. Penso como penso porque circulo por onde circulo. Penso como penso porque tenho ideologias. Penso como penso porque sou fruto deste momento histórico.
Mas essa análise pouco profunda é suficiente? Em tempos de muros nos faltam palavras. Uma jornalista que admiro escreveu sobre isso. Ainda estamos sem palavras para nomear o que nos passa neste momento histórico. Talvez seja isso que me corte a escrita, esse muro colocado que me impossibilita o feliz encontro com as fronteiras, com as letras, com os outros.
De qualquer forma eu sinto falta e só consegui escrever sobre como ainda não sou capaz de escrever.

Endeusar o futuro

Não sei em que espelho encontro meu reflexo. Os rostos mais velhos que vejo nas ruas não me dizem nada. Talvez digam tudo. Já não leio. Não tenho tempo pra ler, não tenho paciência. Passo para a próxima música, não deixo chegar nos últimos acordes. A outra música, a que virá, pode ser melhor. Nunca é. Eu sei quais músicas tenho na biblioteca virtual. O metrô vai rápido e são muitos os reflexos que encontro ali. Caras e mais caras desconhecidas. Ainda não reconheci o mesmo rosto, me falta rotina para esse tipo de detalhe. Na última noite encontrei essa senhora, não sei se posso chamar de senhora, não parecia tão velha, só tinha os cabelos grisalhos, curtos. Um rosto decidido, resolvido, maduro e sensível. Era séria sem ser solene, era militante de esquerda pelas roupas e companhias, dia de manifestação. Sentava com as pernas cruzadas, os olhos marcados, não sei se por maquiagem ou por natureza. Era bela. Encarei por um tempo esse rosto tão forte e me imaginei como desenho de seu passado. Ela me encarou também, reparou em minha bolsa, em meu broche, em meu sapato. Um reparar sem julgar exatamente, uma curiosidade, talvez a mesma que senti ao vê-la sentada em minha frente. Não sei seu nome, é provável que nunca mais a veja. Mas vi em seu rosto um reflexo de algo que não consigo imaginar ser. Isso foi diferente. Isso foi bom.
É importante não endeusar os mais velhos. É importante não endeusar os mais novos. Endeusar talvez seja uma das coisas mais violentas que se pode fazer. Não há deus, menos endeusamentos. Vamos flutuando, errando, se quebrando em mil pedaços e depois voltando a pulsar.

Relatos de trânsitos*

Primeira marcha. Acelera. Segunda marcha. Para. Sinal fechado. Buzinas a ruir. Primeira marcha. Acelera. Para. Quase bate. Buzinas. Curvas. Trânsito travado. Todos os dias a mesma rotina. O motorista cansa de transitar pelos mesmos caminhos. Responsável pelo transporte. Responsável pelas vidas. Responsável pelo fluxo. Cansado.

Leandro Rangel escuta música enquanto dirige. Evita o pesar do tráfego. Evita o pensar no trânsito. Um quilômetro de cada vez. Louvado seja o Senhor. Jesus amado. A graça do Senhor. Baladas de sua estação de rádio. Leandro canta e ora. Ora para que o dia termine. Cansado das vias congestionadas. Fatigado pela pressa. Motorista, mas passageiro na vida dos transeuntes. Atravessa de Leste a Oeste. Vai pelo Centro e pelo Sul dessa cidade que vende maravilhas. Leandro vive o trafegar carioca.

São mais de trinta anos de vida. Poucos de manobras próprias. Parece tranquilo, esconde o estresse. Leandro conta seu passado como passatempo. Um mundo de histórias entre sinais fechados. Viajante, já atravessou outras estradas. Também parou horas em outras esquinas. Tudo antes de pilotar ônibus. Na juventude, jogou esperanças no exercício militar. Serviu. Sim, senhor. Prestou serviço. Foi milico. Um passado presente. Uma memória que prefere não alimentar.

Brasília, Curitiba, Porto Alegre. O serviço é federal. Outras estruturas, outras cidades. Um posto que sempre soube preservar. Veio então a grande oportunidade. Uma ação militar. Uma ação de paz. Um mundo a desbravar. Era 2005, clareia ao relatar: Nações Unidas, missão exemplar, orgulho nacional. Os que agora procuram em nossas terras uma terra sentiam então o gosto do nosso punho militar. O Haiti não é aqui. Haiti é longe. Está nos olhos dos imigrantes e na vida dos migrantes. Haiti é para onde foi o motorista trabalhar em missão de paz.

Cautela ao alumbrar o passado. Leandro viveu seis meses na ilha. Diz que “tem coisa que quero esquecer. Tirar da cabeça. Nunca mais pensar”. Relata com dor que não há água potável. Não há saneamento. Quase toda população tem alguma doença grave. Conta que os corpos das pessoas mortas jaziam pelas ruas. Um país de jovens pela guerra, jovens pela fome, jovens pelas doenças mais básicas. O motorista não quer se lembrar de um mundo sem infância. Sem brincadeiras de rua ou futebol. Todos inseridos no mar de violência.

Fica mudo por um tempo. Pensa ao manobrar. Nunca vai esquecer o que perdeu por lá. Não foi somente a inocência de crer. Crer em paz, crer em militar. Perdeu uma amizade. Morta por fuzil. Um tiro entre o olho e o nariz. Aponta exatamente o lugar. Morreu nas ruas. Um fuzil nas mãos de uma criança que jamais foi criança. Nas mãos de um sobrevivente. Guerreiro de mil guerras. Dez anos tinha. Acertou bem ali, parte vital. Seu amigo foi morto por um menino de dez anos armado com um fuzil quase de seu tamanho.

Só Jesus. É só Jesus pra nos ajudar. Nesse mundo cão, sem infância, sem água, sem chão. Um povo destruído rompeu algo no motorista contador. Nunca mais foi o mesmo. Recebeu outras incumbências. Depois de seis meses no inferno foi mandado de férias para Nova York. Nada fazia sentido. Largou o uniforme camuflado. Deixou de lado o seu fuzil. Pediu um tempo, um médico, uma oração. Foi trafegar pela cidade, abrindo passagem para outras histórias. Agora quer ser policial no Rio de Janeiro. É mais tranquilo, diz Leandro. Mais tranquilo do que manobrar a vida dos outros sem saber bem o motivo de tudo isso.

*Texto publicado no Zine Travessias.

Travessias

O MARAVILHOSO MUNDO DE GEORGIEVNA GRUNNUPP

Entrevistei a Elke Maravilha para o Jornal Tabaré no ano passado. Quando publicamos o texto online a repercussão foi além do imaginado e pra falar bem a verdade até agora não entendo muito bem o motivo. A entrevista foi interessante, mas nada diferente das diversas entrevistas que essa grande personagem já deu. Provavelmente o olhar atento de pontuais formadores de opinião tenha contribuído para a propagação. Enfim, depois de muito tempo eu publico a conversa aqui neste canto do mundo digital.  

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Por Luna Mendes e Natascha Castro
Fotos por Yamini Benites

Conhecida por sua gargalhada estridente e sua presença marcante, Elke Maravilha é o reflexo de um caleidoscópio de estilos e referências montado pelas diferentes culturas com as quais conviveu. Talvez sua multietnicidade seja um dos seus atributos mais evidentes, algo que se reflete visualmente em sua excêntrica maneira de vestir e agir.
Nascida na Rússia, Leningrado, em 22 de fevereiro de 1945, com cerca de oito anos Elke veio para o Brasil, interior de Minas Gerias, e deixou de ser Georgievna Grunnupp. No fatídico primeiro de abril de 1964 chegou ao Rio Grande do Sul onde estudou Letras com ênfase em Grego e Latim na Universidade Federal. Durante a ditadura militar, voltou para a Alemanha, vagou pela Europa e até plantou fumo na Grécia. Sua itinerância lhe rendeu a habilidade de falar oito idiomas, além da fluência em duas línguas mortas.
O gosto pelo diferente e a coragem de enfrentar valores conservadores da sociedade fizeram de Elke uma eterna personagem, comumente relacionada a escândalos, algo que lhe confere um ar de irrealidade mesmo agora nos seus 68 anos.

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– Elke, uma das curiosidades maiores sobre a tua vida é essa itinerância. Tu já moraste em muitos lugares e falas oito idiomas. Conta mais sobre isso.*

Eu sou uma vira-lata, né. Minha mãe era alemã, meu pai era russo, minha avó mongol, meu avô era mestiço de viking com azerbaijano. Na Rússia, a pessoa que fala menos línguas, fala quatro. Isso é normal, meu pai falava quatorze. É louco, porque nossos vizinhos todos falam espanhol e nós não estudamos espanhol. Uma falta de educação, né? Na minha geração estudávamos, porque eramos atrelados à França culturalmente, então a gente tinha uma coisa mais ampla. Hoje é americano, né? Depois que a gente se atrelou culturalmente aos Estados Unidos, a gente caiu muito de qualidade. Na minha época a gente fazia português, francês, espanhol e inglês no ginásio. Depois, no clássico, estudávamos latim. Mas depois que a gente se atrelou aos Estados Unidos, eles acharam por bem que, quanto mais idiotas nós ficássemos, mais bois a gente ficava, né? Mais gado indo pro matadouro. É uma pena, chegarmos ao ponto em que estamos.

– Na época em que tu iniciaste, a carreira artística era cheia de preconceitos contra as mulheres. Como era ser uma mulher artista e independente?

Olha, amor, eu nunca fui mulher, sempre fui uma pessoa. Nunca permiti ser chamada de mulher. Falei: não, não sou mulher, sou pessoa. Porque desde pequena eu percebi que o homem é melhor do que nós. Então eu resolvi não ser gênero. Quando pequena, meu pai me levava numa casa onde havia onze mulheres, eu olhava aquele movimento e depois saía com meus pais e os amigos dele pra caçar. Caçar era a última coisa que faziam, enchiam a cara, filosofavam, falavam merda, tinham afeto. E quando eu estava com as mulheres era tudo um maldizer. Até que um dia eu cheguei pro meu pai e falei: “Pai, eu sou mulher, né?”, ele falou “é”. “E você é homem, né?”, e ele disse “é”. “Aquelas que estão na casa conversando são mulheres? E vocês que estão na rua caçando são homens?”. Perguntei “pai, eu tenho que ser mulher? Eu tenho que ser como mulher?”. E ele falou “por quê, minha filha, você não gostou?”, e eu falei “não”. Então ele disse “não, minha filha, seja o que você quiser”. Aí eu resolvi não ser mais gênero.

– De que maneira?

Simplesmente não sendo mulher. O que mulher faz? Fiscal de pica: nunca fui. Mantenedora da vida, mesmo que a vida seja um saco: não. Materialista, que matéria vem de mãe: não. Tudo que a mulher faz, eu não gosto. Porque eu não quis, eu quis ser gente, essa é minha proposta, e acho que eu estou conseguindo.

– Tu acha que o mundo é muito careta?

O mundo não tá careta, o mundo tá muito ignorante. E a ignorância é mãe e irmã do preconceito. Quando eu tinha uns oito, nove anos, morava na roça em Minas Gerais, e meu pai sempre falava: presta atenção na natureza, ela ensina tudo. Eu falava: mas você ensina. E ele dizia: eu faço parte da mãe natureza, mas eu erro, a mãe natureza não erra. Um dia ele falou, vem cá ver uma manifestação da mãe natureza que é importante que você conheça. Em Minas temos gado leiteiro, a topografia não permite gado de corte. E tinha uma vaca com um bezerro grande e ela queria dar para o touro. Mas eles não queriam que a vaca transasse, porque ela não daria mais leite por ficar grávida. Então o que faziam? Botaram um boi gay, o touro se satisfazia no boi gay e acabou o problema. Meu pai perguntou se percebi o que tinha acontecido, e eu falei “então a mãe natureza faz seres pra que não se procrie muito”. Depois ele me mostrava porco gay, pato gay, gente gay, normal. Mãe natureza fez, tá muito bem feito. Agora nós não conhecemos mais a mãe natureza. Hoje o ser humano olha pra mata e diz “como é bonita a natureza”, como se ele não fizesse parte. Como assim? Resultado disso é Feliciano, ou “desinfeliciano”, que é uma coisa horrorosa. Você sabe que essa foi a única vez que eu tive vontade de sair do Brasil. Quando as pessoas votaram nesse homem e ele falou em Cura Gay. Falei, gente, nós chegamos ao cúmulo da ignorância, não vou ficar mais neste país. E ninguém fazia nada! E as pessoas que berravam eram usadas pelos calados. (sussurra) Os calados que são os piores. Agora, graças a deus, três dias depois começaram as manifestações de rua e eu falei: “Então não preciso mais sair”.

– Tu é anarquista?

Eu não tenho lado político. O mais próximo do que se pode me chamar é anarquista. Mas eu não sou anarquista. As pessoas acham que eu sou de esquerda porque eu perdi a cidadania na época do Médici, fui pra cadeia – violação à Lei de Segurança Nacional. “Você é de esquerda”, não. “Ah, mas você foi presa na época da ditadura”. Eu não sou de direita, nem de esquerda, talvez eu seja de banda. Porque eu não acredito, nunca acreditei em ideal fora do coração. Eu só acredito em ideal no coração. Quando sai do coração e vem pra mente e vira uma bandeira, fudeu tudo. Seja comunismo, seja nazismo, seja PT, seja a puta que pariu… Porque de coração eu tenho que saber que eu não posso puxar teu tapete. De coração eu tenho que saber que eu não posso te explorar. De coração, de coração, de coração. De coração eu tenho que saber que eu não posso deixar você ignorante, que se eu tiver algum caminho pra alguma coisa eu tenho a obrigação de te contar. De coração. Saiu do coração, meu amor, nunca funcionou. Nunca! Meu ex-marido Sacha, falou assim: “Elke, você tem um carma”. Eu falei “eu tenho vários, mas a qual que você se refere?” E ele disse “você nasceu em Leningrado, e vai morrer em ‘Lulagrado’”. Que horror, Deus do céu, eu mereço. Eu tive que ver a dona Dilma na Europa ensinando a Angela Merkel a governar, gente.

– O que tu achou disso?

Eu fiquei morrendo de vergonha.

– O que tu acha da Angela Merkel?

Não que eu ame a Angela Merkel, entende? Não é minha paixão, mas, porra! A mulher segura aquela porra com unhas e dentes e aí vem uma PAVERNI da América do Sul, onde não tem educação, onde estamos importando pedreiros, onde não temos médicos, onde não temos merda no cu pra cagar, onde somos roubados, e ela vem querer ensinar pra Angela Merkel a governar? Ai, ai, ai… Não. Gente, o que é isso? A que ponto nós chegamos?

– Tu é contra o atual governo brasileiro?

O último governo que eu gostei foi do Jânio Quadros. Foi triste ele ter que sair, a primeira coisa que Jânio fez quando foi presidente da república foi devolver terra pra índio. Índio só tem terra por causa de Jânio Quadros. Segunda coisa foi botar embaixador brasileiro pra nos representar lá fora. Primeiro mexeu com latifúndio, segundo com os racistas. Terceiro, foi pra Cuba, deixou bem claro que não era comunista, mas que queria que o Brasil fosse livre pra negociar com quem quisesse, inclusive URSS e Cuba, e que ele não ia participar de embargo de porra nenhuma e condecorou Fidel e Che. Deixando bem claro que o Brasil era livre. Livre? (Risos). No fundo realmente, meu amor, a única liberdade que todos têm, além de países, talvez a Mongólia seja livre, a Mongólia é. A única liberdade que nós temos é a de escolher a prisão que a gente quer ficar.

– Como foi ficar presa durante a ditadura?

Fiquei presa seis dias. Foi ótimo (Risos). Foi mesmo. Olha, eu sou madrinha dos leprosos, dos loucos de hospício, dos gays, dos presidiários e dos lixeiros de Minas. Uma época, eu ia muito em um hospício, inclusive fui muito amiga de Nise da Silveira – doutora Nise, alagoana, primeira psiquiatra mulher, era sujeito homem, tinha muita coragem. Se formou em 1934 e acabou com o choque elétrico, com drogas para os loucos, ficou amiga de Jung, e eu tive o privilégio de ser amiga dela. E os loucos sempre gostavam de mim, mas em um dos hospícios tinha um louco que não me suportava. Olhava pra mim, baixava a cabeça e saía de perto. Eu vi que ele não tinha nada de louco, ele incomodava muito a família e então prenderam ele no hospício e lá ele começou a incomodar mais. Davam muita droga, muito choque elétrico, pra amansar ele, mas não tinha efeito. Ele era muito forte física e espiritualmente. Então botavam ele na solitária. Um dia eu passei na frente da solitária e falei assim: “Domingos, vim aqui conversar com você. Olha pra mim, poxa. Não é melhor você amansar um pouco? Do jeito que você é as pessoas ficam muito incomodadas e acabam te machucando, te dando drogas, choque elétrico, te botam atrás dessas grades. Você não acha muito chato viver tua vida inteira atrás dessas grades?”. Então ele me olhou, veio até mim [Elke levanta da mesa e grita]; “Quem é você pra me dizer o que eu tenho que fazer, hein?! Depois, é uma questão de perspectiva, meu bem, eu também estou te vendo atrás das grades!” Sentou [ela senta], baixou o olho e nunca mais olhou na minha cara. Peguei meu rabo, botei entre as pernas e fui pra casa ficar digerindo aquilo. Ele era bem mais livre que eu, não fazia concessões. Quando fui presa eu falei: ah, é só um prédio. É só um prédio.

– Ser livre é uma coisa que incomoda?

Não, porque ser livre é um trabalho de muitas gerações, não incomoda absolutamente. Mas nós não estamos prontos para isso. A gente tem liberdade de escolher a prisão que a gente quer ficar, tem gente que é até escravo da liberdade, procura tanto a liberdade que fica escravo dela.

– O que tu pensa sobre a criminalização das drogas?

Sinceramente, não sei qual é a solução. Agora, uma coisa eu sei, as campanhas que se faz são completamente equivocadas, as pessoas não divulgam que a droga é gostosa. Se tua vida for preenchida de certas coisas, você não vai precisar da droga, ou você vai usar a droga para encontro ou para ritual. Entende? Cada droga preenche alguma coisa que você não tem. Por exemplo, maconha é relaxante. Eu fumando maconha – já fumei muitas vezes -, durmo, porque eu já sou relaxada, não é algo de que eu precise. A cocaína é uma droga de poder, dá a sensação de que você é poderosíssimo. Uma vez em Nova York eu estava numa festa, passou a bandeja, falei que não ia querer. Não, me disseram, cheira porque se não você vai ser execrada. Eu cheirei, meu amor, eu fiquei tão brilhante, tão poderosa que comecei a contar a história do Brasil de 22 de abril de 1500 até então, mil novecentos e oitenta e pouco, o pessoal parou de dançar pra ouvir a história do Brasil, e só tinha três brasileiros. Eu não preciso dessa sensação de poder, mas tem gente que se sente uma merda tão grande, que precisa dessa sensação. É como botar o pau na mesa: eu sou mais do que você, então você vai ter que me engolir. E o que é o máximo hoje em dia, não é o poder? Então pra você tirar a cocaína de uma pessoa você tem que educá-la de um outro jeito, não dizer que o máximo é o poder. Eu também fumei crack, o crack é uma euforia, eu não preciso, mas criança de rua não precisa? Precisa, amor. Pra você tirar uma pessoa do crack, além do problema físico, você tem que dar uma coisa mais gostosa pra ela. E outra coisa, droga não é pra fuga, é pra encontro. A minha geração tomou drogas pra autoconhecimento, agora eu não vejo mais gente tomando droga pra autoconhecimento, eu só vejo ou pra curtir, ou pra fugir. O poder é a pior droga, e ninguém persegue o poder. Quem matou mais, a cocaína ou Medellín? Foi Medellín, não é? O que você tem que fazer? Educar bem as crianças. Eu tive consciência plena, não fiz filho porque eu não sei educar uma criança e porque não posso ter âncoras, filhos são âncoras. Inclusive fiz abortos. Sem a menor culpa, porque, puta que pariu, eu não saberia educar uma criança. Quando você fizer um filho, você tem que estar consciente de que você está dando a vida e está dando a morte.

– Os teus abortos foram públicos. Isso nunca foi um arrependimento?

Não, quanto mais velha eu fico, mais eu acho que acertei. Depois, temos 7 bilhões de pessoas no mundo e 1 bilhão e 200 milhões no perrengue. Eu tenho muitos deuses, sou politeísta. Tem uma frase do Álvaro de Campos que eu acho que foi feita pra mim: “Ergo em cada canto de minha alma um altar a um deus diferente”. Eu vejo que as pessoas têm uma ideia muito de gente de deus, “deus é fiel”. Fiel? Fiel é um adjetivo que fizeram pra gente, deus não cabe em um adjetivo que fizeram pra gente. Vai se fuder, deus é fiel. “Deus é bom”, não cabe. Não é. Deus é tsunami. Deus é geleira despencando, deus é tempestade de neve, deus é tempestade de areia. As religiões nos atrapalharam muito. O que essas religiões fizeram? Fora o budismo. O cristianismo, eu adoro Cristo, mas Cristo só trata do homem. E a floresta, que é nossa irmã? E a pedra, que é nossa irmã? E o cavalo? E o rato? E o vírus da Aids? E o tubarão? São todos nossos irmãos. Então, na realidade o que nós fizemos? Botamos um monte de coisa pro homem fazer e esquecemos do tempo em que a terra era sagrada, do tempo em que a floresta era sagrada. Você pedia licença para tirar uma folha, nos tempos em que o mar era sagrado. Para os gregos, era Poseidon, para os romanos, Netuno, para os africanos, Iemanjá, e você não poluía o mar, né? No tempo em que o raio era sagrado, para os africanos, Iansã, o trovão, Xangô, na hora em que a deusa raia e o deus trovão se encontram tem a trepada do céu com a terra, e aí tem o orgasmo que é chuva e a terra germina. Isso é sagrado. Agora nós… no sábado não pode fazer isso, porque segunda não sei o quê, meu deus do céu! Esquecemos a mãe natureza e essa profanação, gente?

– Tu tem uma religiosidade própria, sem seguir nenhuma filosofia?

Religar, a vida é sagrada. E ninguém tá tratando a vida como sagrada. Qual é a proposta? Casar, ter filho, ganhar dinheiro, deus é o dinheiro. Antigamente, Cronos na Grécia era o tempo, por isso falamos “cronometragem”, entre os africanos era Ludumaré, tão reverenciado que nem o nome diziam. Aí chega o americano e diz “Time is Money”. E o que fizeram? Não usam mais o tempo para ser, só para ter. Ter não é ruim, não, mas você usar seu tempo todo para ter?

– Tem uma frase interessante tua, “a moral não está no meio das pernas”. Tu acha que a sexualidade deveria ser tratada de outra maneira?

Eu nunca fui obediente, mas na minha geração você não podia trepar sem casar. Eu nunca fui mulher, então não tive esse problema, trepei e pronto. Só fazem com você o que você permite. Tem um texto que eu gosto muito, que eu faço no meu espetáculo, de Étienne de la Boétie: “Gostaria de entender, gostaria apenas de entender como é que pode ser que tantos homens, tantas cidades, tantos países suportem, às vezes, uma tirania que tem apenas o poder que eles próprios lhe dão. O que faz com que uma nação trate as outras como escrava e as prive de sua liberdade? Será que não sabem que não é preciso combater essa tirania? Que não é preciso anulá-la, porque ela se anula a si própria. Basta que não se consinta em servi-la. Se nada se dá aos tiranos, se ninguém lhes obedece, sem lutar, sem golpear, eles ficam nus, ficam feridos e não são mais nada, são como o galho que se torna seco quando a raiz não tem nem umidade nem alimento. Decidam não mais servir e estarão livres. Não mais o sustentem e verão como o grande colosso de quem se subtraiu a base pode desmanchar-se com seu próprio peso e desmoronar.” 1460 – Étienne de la Boétie. Só não obedecer, fácil.

– Como Gandhi?

Como Gandhi, como Sócrates, como os bolivianos.

– Bolivianos da geração Morales?

Antes e em Morales. Ele não é ditador, é um índio que quer proteger sua raça. O índio boliviano é o povo mais ético e honrado do mundo, junto com o Japão. Mas eu admiro mais o índio boliviano, porque ser ético e honrado sem quase nenhum dinheiro é mais difícil. Uma vez eu cheguei para uma senhora da Bolívia, índia, né? Porque o branco boliviano é estragado. Eu cheguei para uma mulher lá e falei, “como vocês bolivianos são diferentes”. Ela falou, “como assim?”. Ela tinha dois dentes na boca, pobre de marré deci. Eu falei o seguinte, “eu sei que vocês tiveram ditadores, mas do jeito que o ditador sobe, vocês fazem huelga general, nem mosquito voa, e vocês só voltam a trabalhar quando o ditador caiu”. Eu falei, “vocês não deixam a doença se instalar”. Por exemplo, eu nasci na Rússia: 70 anos de ditadura, minha mãe era alemã: 20 de ditadura, sou brasileira: 20 anos de ditadura, fora as que tiveram antes, Cuba: 40 anos de ditadura, Argentina: 20 anos de ditadura, e Chile… E 33 anos de um homem só no Paraguai. E a gente que teve ditadura fica “ah, o que a ditadura fez… ah…”. Eu não reclamo, porque eu sou responsável, só fazem comigo o que eu permito, então quando falam pra mim “ah, e a ditadura?”. “Ótima, eu permiti”. Então falei pra ela, “vocês são o único povo que não permitem isso”. Ela falou, “pois é, nós somos o povo mais pobre da América Latina, mas nós nunca remamos a favor da corrente, e a senhora há de entender, tem povos que ainda não são povos, ainda são gado”. Eu fiz mó três vezes: nasci na Rússia, móooo, mãe alemã, móoooo, sou brasileira móoooo. Eu cheguei à perfeição, três vezes gado! Não é uma beleza? Que maravilha aquela mulher, que lição!

– Como tu definiria Elke Maravilha?

Como nós todos, não temos definição. Somos tudo, somos santos e demônios, somos bonitos, somos feios, somos grandes, somos minhocas. Nesse ponto é muito bom ter nascido russa. Freud dizia, o russo e o irlandês são os únicos povos que não precisam de psicanálise porque não têm medo de mostrar sua sombra. Não têm medo de dizer “olha eu sou mau e eu sou bom”, não tem essa de ficar camuflando nada. Porque os outros povos têm medo, só querem mostrar o lado positivo. Eu lembro de quando era pequena, meu pai falou, “filha, o que você estudou hoje?”. “Estudei uma coisa maravilhosa, que o povo brasileiro não é um povo violento”. Ele perguntou,” onde é que você ouviu essa bobagem?”. “A professora que falou”. “A professora fala qualquer merda, você acredita?” Eu falei, “tá escrito aqui, olha pai”. Ele disse, “minha filha, o papel é muito paciente, você escreve qualquer merda nele, ele aceita. Pergunta amanhã se o que fizeram com os negros não foi violência, pergunta amanhã sobre o que fizeram com os índios, quando o português chegou tinha 22 milhões, agora tem uns 400 mil (agora então tem uns 100 mil), cadê? Pergunta se morrer na fila do INPS (na época era INPS) não é violência? Pergunta se deixar uma pessoa analfabeta não é violência? Pergunta!” E eu comecei a perguntar. Aí virei uma pentelha.

*Em alguns textos do jornal Tabaré, optamos intencionalmente pela concordância de acordo com a variação linguística porto-alegrense, concordando a segunda pessoa do singular com o verbo da terceira. Nos inspiramos em teóricos linguistas que defendem que a língua deve se adaptar às características locais dos que a utilizam, valorizando as diferenças desse país continental.

Sobre o Estatuto do Nascituro e a minha experiência com o Aborto

Fiquei sabendo só no final do dia que o projeto de lei chamado de Estatuto do Nascituro foi aprovado pela Comissão de Finanças e Tributação da Câmara dos Deputados. Eu realmente não sei o que uma Comissão de Finanças e Tributação faz, mas pelo nome não me parece a Comissão adequada para tratar do assunto. Principalmente porque aborto é uma questão de gênero, uma questão cultural e principalmente uma questão de saúde pública.
Criminalizar uma ação não resolve problema NENHUM (quer melhor exemplo que a proibição de qualquer droga?). Qualquer país realmente laico deve ter leis condizentes e jamais permitir que crendices interfiram na liberdade de mulheres e homens. O jornal Tabaré publicou hoje uma reportagem sobre o Aborto, produzida em abril de 2012, por Júlia Schwarz, Juliana Loureiro, Luna Mendes e por mim. Eu já postei neste blog a íntegra da reportagem, mas vale a pena sugerir novamente a leitura.
Esta é provavelmente a matéria mais interessante que já fiz até hoje. O tema por si só é complexo, me envolve diretamente por ser mulher, por apoiar a descriminalização do aborto e por conviver com inúmeras mulheres que recorreram à prática. Penso poder dizer com alguma certeza que não há mulher que viva sem medo neste mundo. E não é um medo comum, desses que compartilhamos com os homens, como medo da morte, medo de não conseguir se sustentar, crescer, amadurecer… Enfim. É um medo, curiosamente, bem particular: o medo do estupro, o medo da gravidez indesejada.
É hipocrisia afirmar que isso não existe. Pergunte para qualquer mulher. É um medo quase cotidiano, para algumas é sinceramente diário. É um receio que parece ter nascido com toda mulher, mas na verdade é fruto de uma cultura. Essa nossa cultura que não nos dá direitos sobre o nosso próprio corpo, que nos aponta a culpa quando somos vitimizadas, que sempre desconfia de nossas palavras, que nos infantiliza, que jamais nos tratou como iguais.
Mesmo consciente de tudo isso, enfrentei realidades e surpresas na produção da reportagem sobre o Aborto. A primeira delas foi com os dados, incertos pela impossibilidade de saber aquilo que se faz escondido, mas mesmo assim gigantes. “No mundo, são realizados 42 milhões de abortos todos os anos. Mais de um milhão deles, no Brasil. A cada sete minutos uma mulher morre em algum dos cinco continentes em decorrência das complicações de procedimentos mal feitos. Em nosso país, essa é a terceira causa de morte materna.”
A leitura de “O Segundo Sexo”, de Simone de Beauvoir, também foi chocante. Já era meu livro de cabeceira, mesmo antes de ler a parte em que ela discorre sobre os abortos. É um histórico incrível que comprova aquilo que vemos com tanta clareza: a religião vitimizadas as mulheres. E isso desde sua fundação, no caso das igrejas cristãs. É impressionante como isso é natural no pensamento e no senso comum. Está entranhado no ideal de “certo” e “errado”. É deprimente.
Mas essas eram informações de alguma forma previsíveis, ou minimamente compreensíveis, como são todos os dados. A falta de palavras é mais forte quando eu tenho que falar sobre a entrevista com Gisele.
A mulher de nome fictício me recebeu em sua casa de cara lavada, sem maquiagens ou qualquer outra forma de proteção. E foi assim, completamente aberta, que me contou sua história. Relato triste, relato sofrido, cheio de culpa, cheio de remorso. Quando me contava de seu último aborto fez silêncio. Seu corpo tremia e ela tentava respirar e se controlar para contar tudo, para não deixar nada de fora. Nada do horror daquele aborto caseiro. E com as memórias foi impossível evitar as lágrimas. Profundas, sentidas. Pela primeira vez em minha pequena vida de jornalista fiquei realmente sem chão. Sem saber o que fazer. Sem nenhuma palavra pra dizer. Ensinaram-me, nas aulas da grande Faculdade, que não podemos ter nenhuma intimidade com as fontes (assim são chamadas as pessoas que nos contam suas vidas), não podemos nos sensibilizar, temos que ser objetivos. Mas que humano é capaz disso? Segurei sua mão. Foi a única coisa que consegui pensar em fazer. Roubei sua história e segurei sua mão. Não consigo imaginar como um jornalista-homem teria reagido.
Gisele é uma mulher boba, mulher que se deixou enganar, mulher que se enganou. Ela não tem perdão. Hoje é crente, entrega sua vida e suas finanças a uma igreja evangélica. Eu não a condeno. O que eu faria em seu lugar?
Essa era a pergunta. Nas discussões com minhas colegas de Tabaré sempre chegavam a buracos sem saída. No lugar de outras mulheres, das mulheres pobres que são as maiores vítimas de TODOS os tipos de violência e abandono? No lugar da mulher que não sabe como fazer, com quem falar, para que lado correr? No meu lugar, mulher-guria sem dinheiro para sustentar outra pessoa ou estrutura psicológica para ser chamada de mãe?
Essa PL é uma vergonha porque ignora essa realidade, porque ignora esses questionamentos, porque não serve para proteger ninguém.
“No entanto, o maniqueísmo daqueles que se dizem “pró-vida” reduz a discussão do aborto a um dualismo “bem x mal”, como se eles fossem os grandes defensores da vida e todos aqueles – médicos, juristas, movimentos feministas e de defesa aos direitos das mulheres – que se posicionam a favor da descriminalização do aborto fossem contra a vida. Esses discursos ignoram a complexidade e a delicadeza de um tema como esse, e priorizam projetos de vida em detrimento das inúmeras vidas das mulheres que morrem anualmente em decorrência de um aborto mal feito. A incapacidade de se colocar no lugar dessas mulheres, em buscar compreender seus motivos – que vão desde a falta de condições psicológicas e financeiras até a certeza de que a responsabilidade diante de um filho é muito maior para as mulheres do que para os homens – leva a uma intolerância extrema, acusando-se essas mulheres de serem irresponsáveis e afirmando que elas “têm que pagar pelos próprios erros”. Assume-se, assim, uma postura inconsequente, que prega a gravidez como uma punição e não como uma decisão da mulher. Esses discursos ignoram o grande problema social que se esconde por trás da restrição do aborto e a própria ineficácia da criminalização em impedir que ele ocorra. Também ignoram que grande parte das mulheres que recorrem ao aborto usam métodos contraceptivos e que, portanto, não existem métodos preventivos 100% seguros. Contudo, embora a gravidez indesejada possa acontecer com todas as mulheres, independentemente de classe, cor, idade, etc., apenas parte delas tem direito a um abortamento seguro.”

Editorial – Defesa Pública da Alegria

Porto Alegre despertou? Será que o efeito anestésico do medo finalmente cessou? O que podemos afirmar é que enfim os indignos e os indignados (identificados por Eduardo Galeano) mostraram suas caras depois da manifestação pela Defesa Pública da Alegria.
É comum, em cidades pequenas, que um evento domine os tópicos de conversação. Normalmente são banalidades, mas desde que o Tatu da Coca-Cola foi desinflado no Largo Glênio Peres e a Brigada Militar e a Guarda Municipal encenaram uma repressão digna de 1968, Porto Alegre passou dias de conversações monotemáticas.
A noite do dia 4 de outubro era de festa contra a privatização dos espaços públicos, contra as políticas que criminalizam o trabalho dos artistas, contra a remoção forçada de famílias graças às obras da Copa, contra a política marqueteira das eleições, contra o descaso com ciclistas e a confusão que a prefeitura parece ter com o termo revitalização, que para eles é sinônimo de elitização.
Como sempre, o debate sobre o assunto foi superficial. As mídias partidárias, ou grandes empresas midiáticas, cobriram de preconceitos suas matérias. Lasier Martins bradava ignorâncias repetidas nas redes sociais.
Contra o quê? Por que gritam? Quem são? O que querem? A quase nenhum jornalista lhe passou a brilhante ideia de propor essas perguntas ou de aprofundá-las. Eles obtinham as informações dos policiais e essa era a verdade absoluta.
A Defesa Pública da Alegria é um movimento que reúne diferentes coletivos, artistas, ativistas e cidadãos engajados ao que pode ser resumido como defesa do que é público. Eles convocaram a manifestação em forma de festa e dessa maneira conseguiram mobilizar mais de 1.500 pessoas insatisfeitas com os rumos da cidade. Assim se formou este grupo autônomo e apartidário que entende que “um corpo vivo numa praça é infinitamente mais potente que um voto”. Prova disso é a excessiva repressão policial aos manifestantes em plena época de eleição. Uma polícia que não modificou sua postura com a retomada da democracia no final dos anos 80.
É um fato internacionalmente discutido: a ditadura militar nos legou um dos aparatos repressivos mais truculentos e brutais do mundo. Em maio deste ano o Conselho de Direitos Humanos da ONU recomendou o fim da polícia militar no Brasil, dada a violência e a falta de controle que se tem sobre seus agentes. A existência dessa entidade repressiva é tópico proibido na sociedade do medo. Isso porque o extermínio das comunidades mais pobres passa longe dos olhos de quem vive nas áreas centrais das cidades brasileiras. Mas quando um confronto violento ocorre no centro é impossível fechar os olhos e fingir que não aconteceu.
Entramos então num momento suspenso entre o medo e a vontade de debater. E nesse contexto é papel de qualquer jornal escolher de que lado se postará.
José Saramago afirmou em um de seus discursos que existe apenas uma coisa que não pode e jamais é discutida em nossa sociedade: a democracia. Ela é o bem absoluto e inquestionável. Mas qual democracia? Quão democrática é a democracia representativa? Esses também são questionamentos proibidos e os que se atrevem a ocupar uma praça para gritar que está tudo errado, negando os vícios da democracia representativa, são tidos logo como vândalos, como marginais, como comunistas, como desocupados, como ditadores. Esse é o cidadão combatido por representar o perigo de transformar a política em prática cotidiana.
Parece um consenso essa visão conservadora de cidade legitimada por 65% da população porto-alegrense. Muitas dessas pessoas vivem como se a cidade fosse a mera paisagem de seus percursos, esquecendo-se de que as calçadas foram feitas para o Homem e para a Mulher. Onde se deve viver e experimentar essa estranha sensação de compartilhar um mesmo tempo em um determinado lugar com tantas pessoas diferentes. Não foram apenas os defensores da alegria que explicitaram esse desejo, no dia seguinte moradores da Vila Nazaré bloquearam a Avenida Sertório em protesto contra a remoção da comunidade em função da Copa. Na semana seguinte, vendedores do comércio popular se recusaram a silenciar ao ver seus produtos confiscados por um Estado que finge dar oportunidade e fiscaliza apenas os mais pobres.
No já tão antigo editorial da primeira edição deste periódico nós afirmávamos que “num tempo em que a alegria rareia, o Tabaré gargalha”. E seguimos rindo a plenos pulmões do ódio ignorante e do medo indigno. Esperando que compartilhes dessa mesma esperança cidadã.