O lenço azul

Atei o lenço à cama. Com cuidado, dei dois nós. O lenço azul marcado por listras mais azuis. Não saberia dizer quando começou. Anos já se passaram. O lenço é minha âncora. Prendo-o para não me perder. Finco minhas raízes em forma de lenço. Tudo muito simbólico, é claro. Ainda assim, jamais poderia mensurar a importância desse gesto.
Anos atrás, ávida por outro céu e outro horizonte, parti em uma viagem de alguns meses. Grande passo, primeiro passo. O nervosismo que antecipa a partida chegou forte, pensei em desistir. Encontrei o lenço, não me recordo bem de que maneira ele parou em minhas mãos. É um lenço comum, um objeto qualquer.
Quando cheguei longe e encontrei uma imensidão de altitudes e desertos me senti a esmo. Navegando solitária em terra dura e quente, entre vulcões semi-adormecidos e horizontes muito brancos. Abri a mala no quarto pequeno e encontrei o lenço. Me atei à cama, criei meu próprio conforto, meu porto, minha parada. Hoje posso fazer andanças, me perder em morros e vielas de um centro movimentado, já estou novamente ancorada.

Carta Aberta ao Jornalismo Alternativo

Carta ao Jornalismo AlternativoMachismo na “mídia independente”? Sim, isso ecziste!

O feminismo hoje é pauta, as discussões nas redes sociais, as denúncias, os debates e os questionamentos frequentes demonstram o quanto as questões relativas ao lugar da mulher na sociedade vêm sendo gradualmente abordadas em espaços diversos. No entanto, sabemos que o combate ao machismo é feito no dia-a-dia, em nossas relações pessoais, familiares, de trabalho, nas ruas – naquelas situações de assédio tão banais pelas quais, nós mulheres, passamos e que nos ferem cotidianamente. Parece redundante falar em machismo nas salas das redações dos grandes veículos de imprensa. Redundante porque o próprio resultado final do trabalho jornalístico – as matérias, reportagens, artigos – na grande parte dos casos se resume a produtos machistas, que seguem as mesmas lógicas midiáticas da propaganda abusiva. A forma como as mulheres são tratadas no jornalismo serve de exemplo evidente: enquanto fontes e personagens das matérias, aparecem ou como objetos decorativos a serem apreciados por sua beleza ou como super heroínas que conseguem conciliar uma carreira bem sucedida, a maternidade dedicada e o cuidado religioso com a saúde e a beleza. Enquanto fontes especialistas, dificilmente são ouvidas, dando-se preferência aos seus colegas homens nos comentários sobre política, economia, esporte, etc. Como repórteres, são impedidas ou desestimuladas a desenvolverem pautas investigativas, ficando com as pautas “softs”, visivelmente menos valorizadas na profissão. Como público leitor, os assuntos de seu interesse, relativos às suas vivências enquanto mulheres (como aborto, violência doméstica e obstétrica) são visivelmente relegados a segundo plano ou simplesmente marginalizados e silenciados. Fora isso, na rotina diária das redações da grande imprensa, o assédio contra mulheres ocorre a vistas grossas, e a valorização da posição autoritária dos “machos-alfas” é mantida enquanto “cultura profissional”. Ainda assim, nós, que assinamos esta carta acreditávamos que havia outras possibilidades no jornalismo, que este poderia assumir uma postura de questionar os pré-conceitos e duvidar das verdades e certezas estabilizadas. Tínhamos a esperança de haver espaço para uma prática jornalística diferente, principalmente naqueles ambientes que se colocavam como contestadores, a exemplo das iniciativas de jornalismo alternativo e independente que pipocavam em Porto Alegre e outros lugares. Como estudantes, procurávamos um espaço livre para poder trabalhar com o que acreditávamos da mesma forma que nossos colegas homens, e com esse intuito decidimos construir alternativas. Formamos parte de um coletivo, de uma equipe, de uma redação independente. Estivemos desde o começo trabalhando em diversas etapas da criação, formação e produção de um jornal impresso em Porto Alegre chamado Tabaré. Algumas colegas se uniram ao grupo tempos depois – artistas, designers, escritoras, fotógrafas, etc. Muitas nos deixaram com o tempo, poucas se mantiveram durante os quase quatro anos de existência do jornal. Os motivos das desistências eram diversos: outras ocupações, outros interesses, outras necessidades. Apenas uma coisa permaneceu constante durante todo o tempo: a desproporcional presença de homens e mulheres. O movimento de saída gradual das mulheres do jornal estimulou nossas inquietações – atualmente o Tabaré conta com apenas uma integrante mulher na redação. Hoje conseguimos perceber que na via “alternativa” algumas estruturas e relações semelhantes às vivenciadas na grande mídia se mantêm. Antes, no entanto, costumávamos acreditar que em um jornal “independente” estaríamos minimamente distantes das opressões das redações dos veículos da indústria da comunicação. Formamos um projeto de relações de trabalho horizontais, de tomada de decisões em assembleias em que todos possuíam o mesmo peso de voz e voto, enfim, de ilusões igualitárias. A partir dessa experiência ficou evidente para nós que as opressões sutis são tão ou mais eficazes do que as opressões explícitas. Seria lindo se de fato mulheres e homens tivessem o mesmo peso de voz e voto em um ambiente de trabalho. No entanto, na prática, muitas vezes tivemos nossas características profissionais desacreditadas e desestimuladas nesse ambiente, fomos silenciadas em nossas reivindicações, outras tantas ridicularizadas em nossas críticas. Quando passamos a nos reunir fora do trabalho começamos a perceber que alguns constrangimentos eram compartilhados, que alguns sentimentos eram ecoados pelas poucas mulheres que restavam na redação. Percebemos a dimensão do que ocorria quando cada uma contava sua história e de repente tínhamos uma quantidade enorme de relatos de situações que passavam despercebidas por uma vontade de acreditar naquele rótulo “alternativo”. Pensávamos, assim como sabemos que inúmeras colegas pensam, que em espaços independentes, em ambientes “livres”, em grupos de esquerda, o machismo seria pelo menos combatido por todos, seria uma preocupação de homens e mulheres. A verdade é que isso não acontece. Por mais que muitos dos nossos colegas homens se declarassem apoiadores das causas feministas, quando eram acusados de posturas opressoras e machistas respondiam com indignação. Alguns simplesmente não reconheciam nossas críticas e muitas vezes adotavam a postura nojenta, tão conhecida por nós mulheres, do escárnio. Outros poucos se sensibilizavam, mas na frente dos outros homens dificilmente bancavam um apoio às nossas demandas e reclamações (muitas vezes fomos taxadas de “exageradas”, de “extremistas” ou de “vitimistas”). Tentamos esforçadamente discutir opressões, mas a abertura para a crítica e a autocrítica era quase nula – chegamos a escutar que os homens sabem o que é ser mulher e que portanto nossas reclamações não faziam sentido. Era cansativo ver que todo esforço, todo debate, a cada novo episódio era como se começasse do zero. Juntas, compartilhando nossas experiências, sentimos o quanto esse machismo aparente nas discussões e na falta de abertura para aceitação a críticas é apenas a superfície de um problema muito mais profundo. É triste perceber que essa é uma característica dos meios de comunicação alternativos, a imprensa independente brasileira sempre esteve fortemente firmada sobre posicionamentos machistas. A grande referência desse estilo de jornalismo, O Pasquim, já foi acusado inúmeras vezes de machismo, principalmente pela forma como expunha as mulheres – talvez o maior exemplo seja a famosa entrevista com Betty Friedan. Os membros do Pasquim eram declaradamente antifeministas e ridicularizavam as mulheres que lutavam por seus direitos da mesma forma que ridicularizavam o governo militar. Reconhecemos que O Pasquim era uma grande influência para nossa produção no Tabaré. E a verdade é que todas nós sentíamos nossas potencialidades diminuídas pela maioria dos homens do jornal, duvidávamos de nossas capacidades, e por vezes nos convencíamos de que eles eram melhores. Nossas pautas eram anuladas, nossas propostas sempre pareciam incoerentes e não ‘jornalísticas’ – retrospectivamente, avaliando as publicações, percebemos pautas publicadas, escritas por homens, que quando haviam sido propostas por mulheres, foram derrubadas. Sem falar nas críticas textuais, muito mais incisivas; nos conteúdos derrubados por atrasos com a justificativa de desconhecimento sobre o andamento de nossa produção; na desconfiança sobre nossos materiais. Éramos mais cobradas, precisávamos dar explicações maiores sobre pautas, matérias, textos, imagens, falhas, atrasos, fontes, modos de escrita e a mesma cobrança era feita em outras áreas, como na diagramação e na administração. A inovação deles era criativa, a nossa era anômala. Colegas elogiavam nosso ‘crescimento’ profissional – elogios que insinuavam o quão inesperado era esse crescimento e que demarcavam a nossa posição de “aprendizes” ali dentro. Éramos avaliadas inclusive pela nossa forma física. Em diferentes momentos era necessário reforçar que não estávamos ali para flertes, mas para trabalho. Sabemos que “ser mulher” em nossa cultura é ter nossas capacidades questionadas o tempo inteiro, somos criadas como sendo o Outro (o estranho, o diferente, a emoção ao invés da razão), somos avaliadas e criticadas constantemente (em relação ao nosso corpo, à nossa capacidade intelectual, à nossa sexualidade e desejo). Essas avaliações e cobranças constantes nos fazem sentir menores, inseguras, temos que estudar e trabalhar o dobro pra conseguir “provar” que somos capazes (e mesmo assim nunca será o suficiente). Lidamos desde pequenas com certas formas dos homens se “colocarem” em relação a nós, através de assédios, do aumento do tom de voz, das risadinhas, dos olhares de desprezo, dos questionamentos sobre nossa racionalidade. Práticas muitas vezes sutis, mas que nos dizem desde cedo qual é o nosso “lugar no mundo”, sempre abaixo, atrás de alguém. Com o tempo, muitas vezes passamos a acreditar nessa “verdade”. As palavras e os gestos, quando reiterados, têm esse poder de se estabilizarem, de se tornarem “verdades”, inscrevendo-se em nossos corpos e subjetividades. Estar no Tabaré foi sentir ainda mais essa diferença de ser localizada cultural e subjetivamente enquanto mulher e os efeitos dessa diferença. Nas nossas trocas percebemos que em nenhum outro lugar, nem em “veículos convencionais”, nos sentimos tão inseguras em relação ao nosso trabalho. Todas nós, em algum momento, nos sentimos menores do que muitos colegas homens, duvidando da nossa capacidade enquanto jornalistas, fotógrafas, artistas e designers. Todas já sentiram algum incômodo com a negação veemente de que eles eram machistas (afinal, os machistas são sempre os outros). De alguma forma, acabamos acreditando nessas falas, olhares e posturas de superioridade. Caímos na falsa ideia de que éramos mesmo menos capazes, que nosso trabalho tinha menor importância e que nossos incômodos eram “exageros”, que era “tudo coisa da nossa cabeça”. O irônico é que estes nossos colegas não se encaixam no estereótipo do homem machista agressor de mulheres, totalmente insensível às injustiças e desigualdades que atravessam o social. Pelo contrário, são homens de esquerda, supostamente libertários, muitos inclusive afirmam que são feministas; mas, infelizmente, são homens que esqueceram que são humanos, passíveis de erros e falhas, cheios de incoerências e que carregam em si os preconceitos do seu tempo, o que os impediu de exercer um mínimo de autocrítica e de alteridade. Assim, as práticas desses colegas revelam o lado mais perverso do machismo – sua capacidade de se mascarar em atitudes que não parecem violentas ou graves, através de conversas leves, de uma falsa inexistência de hierarquia, de elogios (em relação à nossa beleza e aos nossos corpos, a como “a gente tinha crescido” graças à oportunidade de estar trabalhando ali naquele lugar, ao lado de homens tão brilhantes), sorrisos de aprovação, demonstração de interesse em nossa vida afetiva-sexual, etc. Homens aparentemente engajados, mas que infelizmente não demonstraram sensibilidade e disposição pra fazer o difícil movimento de ouvir as nossas denúncias e reclamações de machismo, de olhar pra si, pensar sobre as suas práticas e discursos. Isso não é de maneira alguma algo exclusivo do jornal Tabaré, tampouco dos homens que ali trabalham. Queremos deixar claro que o Tabaré é MAIS UM desses ambientes ditos libertários/alternativos pelos quais nós, e tantas outras mulheres como nós, circulamos. O silenciamento e a objetificação que sofremos nesses ambientes é mais difícil de desconstruir e combater justamente por essa sutileza, por essa identificação libertária das pessoas – dos homens – que frequentam esses lugares. Não existe uma oposição escancarada, do machista contra a feminista. Existem pessoas que dizem apoiar nossas lutas, compreender nossas posições, mas que não têm nenhuma abertura pra qualquer crítica ou denúncia – ou até a sensibilidade de olhar para os lados e perceber que está cercado de mulheres que não se sentem à vontade para falar ou participar ativamente de uma discussão. Homens que não perceberam que, em um dado momento, sequer havia mulheres ali, que agora se tratava de uma conversa exclusivamente entre homens, homens que não se importam com essa “repentina” ausência de mulheres e muito menos cogitam ter qualquer responsabilidade ou implicação nesse afastamento. O machismo está em todos os espaços sociais e em todos nós, seres simbólicos que somos, constituindo a nossa subjetividade e se fazendo presente nas nossas relações mais cotidianas. Ser de esquerda, ter tido contato com discussões sobre desigualdade de gênero, achar bonito a “liberdade sexual” feminina e defender relacionamentos abertos não te faz um homem que busca pensar e problematizar o machismo. Pertencer ao movimento feminista e ter a vida toda questionado as inúmeras injustiças que sofreu por ser mulher não te impedem de às vezes cair na armadilha de duvidar da tua capacidade, de se sentir insegura em relação a homens que estão o tempo inteiro te avaliando e duvidando de ti. O medo da rejeição e do desprezo acaba atravessando nossas existências e por isso muitas vezes nós, mulheres, silenciamos e nos acomodamos a uma posição passiva. Estar e participar da construção desses “lugares” de crítica não te faz uma pessoa “iluminada”, imune à reprodução de relações desiguais. Queremos, portanto, com este relato coletivo fazer um convite à reflexão por parte das mulheres e homens que estão engajados nesse tipo de projeto: qual o papel das mulheres nas iniciativas independentes? Por que a discussão de gênero sempre é relegada a um papel secundário? Por que outras questões parecem ser mais “urgentes” nesses espaços e projetos “independentes”? São perguntas que nós mulheres precisamos fazer. Entendemos ser fundamental compartilhar experiências (parecidas ou diferentes) para perceber na cumplicidade dos relatos que esses espaços independentes precisam mudar. Nós, mulheres, precisamos assumir o protagonismo de iniciativas alternativas e combater toda forma de machismo, a sutil e a violenta. Contamos nossa experiência na esperança de estimular outras mulheres a problematizar esses espaços de “liberdade” que ainda não nos inclui completamente.

Texto escrito e assinado por:

Jessica Dachs

Julia Schwarz

Juliana Loureiro

Luísa Santos

Luna Mendes

Natascha Castro

Yamini Benites

Sigo Tecendo

Preciso escrever. Como preciso checar a pressão sanguínea de tanto em tanto. Posso viver uma vida inteira sem médicos, mas preciso apenas porque sinto que é uma necessidade. Preciso momento em que me dedico ao teclar. Tecer uma e outra história. Minha, alheia, do além. Sempre uma personagem que me intriga e que me incomoda.

Escrevo como quem salva a própria pele, sem jamais correr perigo. Abandono meus demônios nas páginas do computador, do caderno, do caderninho, no desenho, no traço, na linha, na letra. Estão todos aí, alçados ao mundo.

Se me repito é simplesmente porque me reciclo e recordo, volto a passar pelo coração ferido. Simples seria reinventar cotidianamente uma vida, duas ou três. Com nomes, idades e formas. Mas eu sou a senhora dos dramas, desde criança. Enquanto minhas amigas brincavam de mães e abraçavam suas bonecas com amor fraternal eu carregava uma maletinha de remédios, pois meu suposto filho estava sempre doente. Que mais posso dizer?

Minha escrita reflete muito do que sou: odeio caminhos fáceis e odeio ainda mais os que se dizem impossíveis. Me esforço para provar o que não é possível e sequer consigo passar dos obstáculos primários. Possuo falhas de caráter, de nascença, de crença, de identidade. Cada erro vai provando uma falta. Escrevo para deixar tudo em evidência, já que caminho procurando as sombras mais escuras, os cantos mais ignorados, apenas para não transparecer em teu olhar.

Escrevo com medo de ser lida. Com pavor de ser reprovada. Mas não escrevo para agradar. Não é um prazer, sequer um ofício. Escrevo porque em alguns dias me parece insuportável não escrever. E cada comentário, cada crítica, me recorda tudo que já ouvi e vivi. Mais um defeito, talvez muitos em um: não esqueço, escrevo.

MST em Contradições

Publico agora minha última reportagem no Jornal Tabaré. Depois de um ano acompanhando as dificuldades de um assentamento no interior do Rio Grande do Sul, abordei a situação do MST depois de trinta anos de sua fundação e as problematizações que os Movimentos Sociais devem encarar ao lidar com governos progressistas.

O REFLUXO DA LUTA AGRÁRIA
Movimento Social icônico no Brasil, o MST reformula sua metodologia e redireciona suas táticas de luta em meio a críticas e abandonos*

É da natureza de uma organização classificada como movimento social o estabelecimento de objetivos específicos, assim como de estratégias e táticas para alcançar suas metas concretas. No Brasil, o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), hoje com 34 anos, ficou conhecido como a organização social mais relevante na luta pela terra. Ao longo da sua história, se espalhou por 24 estados brasileiros e conquistou mais de 300 mil hectares de terras para a reforma agrária em todo o país.
MST

O MST começou a ser gestado em 1979 na região Sul, mas só foi fundado oficialmente em 1984. Da gestação à fundação, centenas de camponeses montaram uma organização sui generis, pois levantava bandeiras não apenas de luta pela terra, mas pela Reforma Agrária e pelo Socialismo. O lema “terra para quem nela trabalha” conquistou corações tanto nos campos quanto nas cidades. Por tal razão, o MST adquiriu três características essenciais: tornou-se um movimento popular que valorizava sua amplitude, na qual, além de todos os integrantes das famílias camponesas, qualquer cidadão que se interessasse pelo tema poderia participar; transformou-se em uma organização de massa, com caráter sindical e uma pauta específica; e virou uma entidade que relaciona interesses particulares e de classe, na luta pela terra e pela reforma agrária.

Em meados dos anos oitenta, o fim da ditadura militar (1964-1985) já indicava a forte crise econômica que o regime deixaria de herança para o país. No campo, a situação era ainda mais precária, porque a miséria, a migração forçada e o latifúndio eram três constantes de Norte a Sul. Junto com o ressurgimento da democracia, renasceram os movimentos sociais e as entidades trabalhistas, como a Central Única dos Trabalhadores (CUT) e o Partido dos Trabalhadores (PT). No campo, os Sem-Terra articularam a luta: coordenavam ocupações, acampamentos e marchas, que resultaram no assentamento de milhares de famílias e deram vida a terras improdutivas. Posteriormente, os núcleos familiares começaram a organizar suas cooperativas e associações.

MST

As medidas tinham grande impacto no começo dos anos noventa, auge do Movimento, em virtude da radicalidade inesperada dos movimentos sociais. Se por um lado o MST era odiado pelas elites agrárias, por outro, era apoiado por uma ampla correlação de forças. “Tínhamos um leque grande que nos defendia, desde a Universidade, os professores, os partidos de esquerda… Todo mundo defendia que, entre o latifúndio improdutivo e os sem-terra, era melhor os sem-terra”, comenta o assentado e dirigente nacional do MST, Cedenir de Oliveira.

Entre os governos de Fernando Collor de Mello (1990-1992) e Fernando Henrique Cardoso (1994-2002), o Movimento dos Sem-Terra provou sua força ao se transformar em uma das maiores organizações populares do país, capaz de pressionar o governo por políticas de expropriação de terras improdutivas mesmo durante os anos mais intensos do delírio neoliberal. Enquanto o PT se adaptava ao jogo político-eleitoral, o que lhe rendeu o governo federal em 2002, o MST manteve a firmeza ideológica e pautou a Reforma Agrária e o Socialismo no debate público brasileiro.

Passados trinta anos, nem o país, nem o movimento são os mesmos. A conjuntura política e econômica é outra: uma democracia representativa estabelecida, ainda que muito questionada, e uma economia em crescimento sustentada com mão forte pelo governo do Partido dos Trabalhadores. O campo também passou por transformações, refletidas nas mudanças táticas e estratégicas do MST.

Nova política

Desde 2005, o Movimento investe mais nas cooperativas já estabelecidas do que em novas ocupações. O direcionamento da luta foi criticado por parte da militância do MST – tanto é que um grupo escreveu uma carta de saída da organização na primavera de 2011.

A “Carta de Saída das Nossas Organizações (MST, MTD, Consulta Popular e Via Campesina) e do projeto estratégico defendido por elas” é bem explícita nesse ponto, até mesmo porque, dos seus 51 signatários, 35 pertenciam ao MST. “Nossas organizações, cada uma a seu tempo e não sem contradições, estão dependentes do capital e de seu Estado. As lutas de enfrentamento passaram a ameaçar as alianças políticas do pacto de classes, necessárias para manter os grandes aparelhos que conquistamos e construímos… Com a expansão e o fortalecimento do agronegócio, evidenciaram-se os vínculos dos governos do PT com os setores estratégicos da classe dominante… Nesse sentido, enfrentar as forças do agronegócio seria uma crítica direta ao governo petista”.

Mesmo ao afirmar que o MST não tem vínculos tão estreitos nem com o PT, nem com o governo, Cedenir reconhece as dificuldades atuais e defende a Nova Política. “Nos constituímos ao longo da história como um movimento autônomo. Evidente que a constituição do MST faz parte de um ciclo histórico, e esse ciclo produziu várias organizações de classe, tanto do ponto de vista do mundo sindical quanto da disputa do processo partidário. Sempre tivemos uma boa relação política não só com o PT, mas com vários partidos de esquerda”, justifica Cedenir.

O MST se manteve disposto a fazer parcerias com os governos que se comprometem a atender a alguns interesses da organização – uma característica do movimento sindical. “É melhor fazer luta com o Tarso Genro do que com a Yeda Crusius, mas isso não resolve o problema da questão agrária. Muito pelo contrário, se você verificar no cenário nacional um dos piores períodos da história do campo, da reforma agrária, da obtenção de terra, é o do governo Dilma”, salienta o dirigente.

MST

Dados do INCRA sobre assentamentos no país – pesquisa contabiliza todos os tipos de assentamentos e não apenas aqueles em terras desapropriadas.

Dados do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) de 2012 endossam a acusação de Cedenir, segundo a instituição o governo de Dilma Rousseff contabilizou a pior marca de assentamentos de famílias dos últimos 17 anos. Em carta entregue à presidenta em fevereiro de 2014, o MST acusou o Governo de ser “incapaz de resolver o grave problema social e político da reforma agrária.” No texto também indicaram que, por ano, o atual governo assentou apenas 13 mil famílias em terras desapropriadas – menor média desde a ditadura militar.

Essa é a principal justificativa apontada por militantes do MST para o refluxo da luta e a mudança estratégica da organização. Anderson Girotto, uma das lideranças da Juventude Sem-Terra, afirma que o MST é “um movimento social que pressiona o Estado através da luta, para que se garanta o direito à terra. Só que, quando o Estado toma uma decisão de não fazer mais assentamentos, automaticamente o movimento fica numa situação delicada. Se tu não tens mais conquistas, a luta vai refluindo. Com essa luta refluindo, a decisão política do MST foi de fortalecer as famílias assentadas e de construir um plano camponês alternativo ao agronegócio”.

O atual sistema hegemônico de agricultura – o agronegócio – é caracterizado por uma elevada concentração de terras nas mãos do capital financeiro, que domina toda a cadeia produtiva. Tal modelo modificou não apenas a situação do campo, mas fez a luta pela terra se adaptar a uma nova conjuntura. Cedenir afirma que o agronegócio alterou a correlação de forças que dava suporte ao Movimento dos Sem-Terra. “Quem apoiava antes a ocupação das terras improdutivas já não apoia hoje a ocupação de terras do agronegócio. Perdemos aliados. A situação ficou difícil porque a sociedade não acha que a ação se justifique”. A organização vem ao longo dos últimos anos repensando seus métodos, já que parte da militância considera as antigas e tradicionais formas de luta, como a marcha e a ocupação, pouco eficientes na atual conjuntura.

“Na medida em que enfrentávamos o latifúndio improdutivo, a ocupação, a marcha e o discurso político de direitos tinham consonância e nos faziam avançar. Hoje, para enfrentar o agronegócio, precisamos de um modelo que o supere. Esse modelo é o das associações e cooperativas. Não é só discussão ideológica, afinal temos que demonstrar na prática que é possível construir outro modelo de produção. Assim, temos um mecanismo de fazer política e também de melhorar a renda das famílias”, argumenta o dirigente nacional do MST.

Um segundo ponto crucial é destacado para justificar o retrocesso da luta que o Movimento vivencia: o enfraquecimento da mobilização social como consequência das politicas econômicas e assistencialistas do governo. Ainda que as políticas públicas não sejam consideradas ineficazes, mas insuficientes, os militantes defendem que a classe foi anestesiada há muito tempo e que tal anestesia ainda não acabou: “É uma consequência do governo Lula, de acomodar, comprar e corromper a luta. Hoje, as pessoas que estão nas vilas não querem acampar [porque], ficam pensando que vale mais morar em um barraco, mas ter uma TV de plasma. Mesmo que ela nunca vá pagar, mesmo sem ter o que comer”, conta a militante Aline de Souza. Cedenir concorda: “Entre a pessoa ir para o acampamento e esperar cinco ou seis anos debaixo de lona ou fazer algum trabalho temporário, é claro que ela vai buscar uma situação mais imediata”. A perspectiva de ciclos históricos compreendida pelos dirigentes aponta para um futuro de contradições do atual modelo político e econômico e o MST aposta na ruína dessa conjuntura. A necessidade de se manter preparado e forte e de incentivar aquilo que já está estabelecido – a produção cooperativada – também justificaria a adoção da nova política.

Ao investir nas associações e cooperativas, o Movimento dos Sem-Terra teria optado por construir uma alternativa econômica ao sistema ou teria se rendido a ele? Como expresso na carta, os dissidentes acreditam que “essa estratégia não leva ao Socialismo. Ao contrário, transforma as organizações da classe em colaboradoras da expansão e acumulação do capital. Agora, o que as organizações necessitam é de administradores, técnicos e burocratas, e não de militantes que exponham as contradições e impulsionem a luta.” Para priorizar a criação de alternativas ao agronegócio, o Movimento passou a limitar internamente as ações mais radicais ao agir dentro de limites legais e firmar acordos com os governos.

Segundo o dirigente do MST, essa mudança tática não contraria os objetivos concretos e históricos da organização. A nova diretriz seria uma maneira de resistir em um período de refluxo e construir uma possibilidade de alternativa no campo. “Isso não quer dizer que abandonamos a ideia do conflito agrário, da ocupação. Se faz movimento com a realidade, não somente com as ideias. Estamos convencidos de que organizar assentamentos, produzir e disputar o processo de organização da produção é também enfrentar o capital. Uma organização social precisa de elaboração política e de firmeza ideológica, mas também precisa demonstrar para a sociedade que é possível fazer diferente. Nossas ideias têm que se transformar em ações reais.”

Entre a teoria e a prática

Com o propósito de reportar as condições dos terrenos ocupados pelo Movimento, acompanhei o último ano de um acampamento na cidade de Charqueadas, o atual assentamento Nova Esperança. As terras ocupadas eram parte da Colônia Penal de Charqueadas, área de responsabilidade da Superintendência dos Serviços Penitenciários (Susepe). O terreno destinado à reintegração dos penalizados pelo trabalho era utilizado para outros fins através de arrendamentos ilegais.

O grupo que iniciou o acampamento em Charqueadas já havia mobilizado ocupações anteriores em Viamão, Vacaria e Sananduva. O objetivo das primeiras ações era pressionar o governo estadual a cumprir um acordo assinado em abril de 2011, que garantia o assentamento de 100 famílias naquele mesmo ano. Do acampamento em Viamão foram retirados três grupos encaminhados para Charqueadas, Eldorado do Sul e Taquari. As famílias realocadas ainda tiveram de esperar cerca de três anos até que os assentamentos prometidos fossem efetivamente concretizados, um longo período de espera para a média das ocupações próximas a Porto Alegre. Em Charqueadas, a declaração oficial do Departamento de Desenvolvimento Agrário do Rio Grande do Sul foi assinada no dia 13 de março de 2014. Apenas quatorze das dezenove famílias que iniciaram a ocupação foram assentadas, e os melhores lotes da região permaneceram como propriedade da Susepe.

MST
As dificuldades vivenciadas durante os três anos acampados debaixo de lonas, sem luz, sem água e sem o apoio do MST não se limitavam à ilegalidade e à falta de condições básicas de moradia. Os moradores de Nova Esperança também viviam ameaçados pelos presos da Colônia Penal. Para os militantes acampados, esses conflitos teriam sido resolvidos se o Movimento Sem-Terra tivesse pressionado o governo para acabar com o presídio. “Agora não tem mais liderança no movimento para botar pressão no governo ou aparecer na mídia. Hoje isso acabou”, lamenta Neli da Silva, assentada em Charqueadas.

Aline de Souza, militante assentada, conta que o Movimento “já tinha decidido não abrir mais acampamentos. A gente fazia parte da direção, então eles eram obrigados a nos apoiar, mas era um apoio político. Fizemos a luta na raça, com pouca grana, era contrariado.” A situação do grupo ficou ainda mais fragilizada quando o racha do movimento se efetivou e a Carta de Saída foi publicada. Parte da militância que encabeçou as últimas ocupações de terra no Rio Grande do Sul deixou a organização na primavera de 2011. “O pessoal que saiu do movimento era mais respeitado. Eles conseguiam garantir estrutura para as ocupações. Depois que entrou essa nova política do MST, de não fazer ocupação, de não ter acampamento, isso acabou com a gente”, declara Marcos Antônio.

MST

Nova Esperança pode ser considerado um caso atípico por relacionar três fatores: a saída dos militantes; o conflito com a Susepe na região; e a oposição da nova política do MST às ações de ocupação. O resultado desse imbróglio foi a fragilização das famílias acampadas, a desilusão com os rumos do Movimento e o sentimento de abandono.

Questionado sobre a situação dessa militância, encurralada entre a crítica teórica e as novas práticas do MST, o dirigente nacional da organização argumenta que o que aconteceu em Charqueadas foi uma situação isolada: “Do ponto de vista do Movimento não houve abandono. Tanto é que o movimento deu sequência ao processo de mobilização. Às vezes, nem é uma questão política, mas afetiva. O que acontece é que no processo de transformação do que é um acampamento para o assentamento ocorre uma grande mudança“.

O comentário do dirigente faz referência ao processo de estruturação de um assentamento. O método empregado pelo MST ao ocupar um terreno passa por etapas: a ocupação é seguida pela formação do acampamento, momento em que as famílias se organizam coletivamente para garantir que o Estado reconheça e registre a terra como um assentamento legalizado junto ao INCRA. Após a declaração firmada pelas entidades responsáveis, é feita a divisão de lotes, e a área passa a configurar um assentamento. Com a divisão de lotes por famílias, a dinâmica de organização se modifica. Cada núcleo familiar é responsável por sua produção, podendo firmar associações e cooperativas com os demais assentados.

Os militantes de Nova Esperança rejeitam o modelo de organização proposto pela cúpula: “As cooperativas têm vários problemas: monocultura, cultivo de soja transgênica, exploração dos funcionários, individualismo…”. Eles também indicam que, além da relação que mantinham com os dissidentes, a recusa à formação da cooperativa motiva a negligência do Movimento. “A prioridade do MST são as cooperativas. Os assentados seguem com grande carência” aponta Marcos.

O dirigente da organização não encara o problema da mesma forma. Cedenir reconhece na conquista da terra de Charqueadas o resultado do trabalho da entidade, o que refutaria a alegação de abandono: “Todo mundo tem sua liberdade de militar e fazer aquilo que achar necessário. Com dissidência ou sem dissidência, todo assentamento que sai de um acampamento passa por um processo doloroso de adaptação. Mas o que vai acontecer? Se eles quiserem vender sua produção para o governo, terão de formar uma associação. É uma questão de lógica de mercado, não é de gostar ou não da cooperativa. Encarar essa realidade te deixa mais conservador – essa é uma questão levantada pelos novos assentados que têm origem urbana. Evidentemente que deixa, mas a vida é assim. Se você não quiser lidar com a contradição, monte uma seita religiosa”.

MST
A conquista da terra em Charqueadas é considerada uma vitória parcial para os assentados, principalmente porque nem todas as famílias receberam seus lotes e o governo não fechou a Colônia Penal. Contudo, a legalização da terra permite que as famílias estruturem suas áreas e comecem a produzir e se organizar. “A partir de hoje, as coisas vão começar a andar, a estrada vai sair, a luz vai vir e os recursos também. Será que vamos ser mais um grupo de colonos individualistas? Em minha opinião, não. Ter um lote individual não significa que vai ser assim, acho que este vai ser um assentamento fora do comum” declara Aline.

Seria este o começo de algo novo? Estaria o MST em seus últimos anos? As apostas da cúpula estão certas e é o agronegócio que conta seus últimos dias? As contradições, as fissuras e os rachas são sintomas de transformações. Sem poder indicar o que virá, parece possível afirmar que mesmo em um período de dificuldades, o Movimento Sem-Terra mantém sua grande contribuição política para a sociedade: a exposição da realidade do campo no Brasil.

*Texto: Natascha Castro | Fotografias: Jonas Lunardon e Yamini Benites | Colaboração especial na reportagem e nas fotos de Gênova Wisniewski.

O MARAVILHOSO MUNDO DE GEORGIEVNA GRUNNUPP

Entrevistei a Elke Maravilha para o Jornal Tabaré no ano passado. Quando publicamos o texto online a repercussão foi além do imaginado e pra falar bem a verdade até agora não entendo muito bem o motivo. A entrevista foi interessante, mas nada diferente das diversas entrevistas que essa grande personagem já deu. Provavelmente o olhar atento de pontuais formadores de opinião tenha contribuído para a propagação. Enfim, depois de muito tempo eu publico a conversa aqui neste canto do mundo digital.  

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Por Luna Mendes e Natascha Castro
Fotos por Yamini Benites

Conhecida por sua gargalhada estridente e sua presença marcante, Elke Maravilha é o reflexo de um caleidoscópio de estilos e referências montado pelas diferentes culturas com as quais conviveu. Talvez sua multietnicidade seja um dos seus atributos mais evidentes, algo que se reflete visualmente em sua excêntrica maneira de vestir e agir.
Nascida na Rússia, Leningrado, em 22 de fevereiro de 1945, com cerca de oito anos Elke veio para o Brasil, interior de Minas Gerias, e deixou de ser Georgievna Grunnupp. No fatídico primeiro de abril de 1964 chegou ao Rio Grande do Sul onde estudou Letras com ênfase em Grego e Latim na Universidade Federal. Durante a ditadura militar, voltou para a Alemanha, vagou pela Europa e até plantou fumo na Grécia. Sua itinerância lhe rendeu a habilidade de falar oito idiomas, além da fluência em duas línguas mortas.
O gosto pelo diferente e a coragem de enfrentar valores conservadores da sociedade fizeram de Elke uma eterna personagem, comumente relacionada a escândalos, algo que lhe confere um ar de irrealidade mesmo agora nos seus 68 anos.

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– Elke, uma das curiosidades maiores sobre a tua vida é essa itinerância. Tu já moraste em muitos lugares e falas oito idiomas. Conta mais sobre isso.*

Eu sou uma vira-lata, né. Minha mãe era alemã, meu pai era russo, minha avó mongol, meu avô era mestiço de viking com azerbaijano. Na Rússia, a pessoa que fala menos línguas, fala quatro. Isso é normal, meu pai falava quatorze. É louco, porque nossos vizinhos todos falam espanhol e nós não estudamos espanhol. Uma falta de educação, né? Na minha geração estudávamos, porque eramos atrelados à França culturalmente, então a gente tinha uma coisa mais ampla. Hoje é americano, né? Depois que a gente se atrelou culturalmente aos Estados Unidos, a gente caiu muito de qualidade. Na minha época a gente fazia português, francês, espanhol e inglês no ginásio. Depois, no clássico, estudávamos latim. Mas depois que a gente se atrelou aos Estados Unidos, eles acharam por bem que, quanto mais idiotas nós ficássemos, mais bois a gente ficava, né? Mais gado indo pro matadouro. É uma pena, chegarmos ao ponto em que estamos.

– Na época em que tu iniciaste, a carreira artística era cheia de preconceitos contra as mulheres. Como era ser uma mulher artista e independente?

Olha, amor, eu nunca fui mulher, sempre fui uma pessoa. Nunca permiti ser chamada de mulher. Falei: não, não sou mulher, sou pessoa. Porque desde pequena eu percebi que o homem é melhor do que nós. Então eu resolvi não ser gênero. Quando pequena, meu pai me levava numa casa onde havia onze mulheres, eu olhava aquele movimento e depois saía com meus pais e os amigos dele pra caçar. Caçar era a última coisa que faziam, enchiam a cara, filosofavam, falavam merda, tinham afeto. E quando eu estava com as mulheres era tudo um maldizer. Até que um dia eu cheguei pro meu pai e falei: “Pai, eu sou mulher, né?”, ele falou “é”. “E você é homem, né?”, e ele disse “é”. “Aquelas que estão na casa conversando são mulheres? E vocês que estão na rua caçando são homens?”. Perguntei “pai, eu tenho que ser mulher? Eu tenho que ser como mulher?”. E ele falou “por quê, minha filha, você não gostou?”, e eu falei “não”. Então ele disse “não, minha filha, seja o que você quiser”. Aí eu resolvi não ser mais gênero.

– De que maneira?

Simplesmente não sendo mulher. O que mulher faz? Fiscal de pica: nunca fui. Mantenedora da vida, mesmo que a vida seja um saco: não. Materialista, que matéria vem de mãe: não. Tudo que a mulher faz, eu não gosto. Porque eu não quis, eu quis ser gente, essa é minha proposta, e acho que eu estou conseguindo.

– Tu acha que o mundo é muito careta?

O mundo não tá careta, o mundo tá muito ignorante. E a ignorância é mãe e irmã do preconceito. Quando eu tinha uns oito, nove anos, morava na roça em Minas Gerais, e meu pai sempre falava: presta atenção na natureza, ela ensina tudo. Eu falava: mas você ensina. E ele dizia: eu faço parte da mãe natureza, mas eu erro, a mãe natureza não erra. Um dia ele falou, vem cá ver uma manifestação da mãe natureza que é importante que você conheça. Em Minas temos gado leiteiro, a topografia não permite gado de corte. E tinha uma vaca com um bezerro grande e ela queria dar para o touro. Mas eles não queriam que a vaca transasse, porque ela não daria mais leite por ficar grávida. Então o que faziam? Botaram um boi gay, o touro se satisfazia no boi gay e acabou o problema. Meu pai perguntou se percebi o que tinha acontecido, e eu falei “então a mãe natureza faz seres pra que não se procrie muito”. Depois ele me mostrava porco gay, pato gay, gente gay, normal. Mãe natureza fez, tá muito bem feito. Agora nós não conhecemos mais a mãe natureza. Hoje o ser humano olha pra mata e diz “como é bonita a natureza”, como se ele não fizesse parte. Como assim? Resultado disso é Feliciano, ou “desinfeliciano”, que é uma coisa horrorosa. Você sabe que essa foi a única vez que eu tive vontade de sair do Brasil. Quando as pessoas votaram nesse homem e ele falou em Cura Gay. Falei, gente, nós chegamos ao cúmulo da ignorância, não vou ficar mais neste país. E ninguém fazia nada! E as pessoas que berravam eram usadas pelos calados. (sussurra) Os calados que são os piores. Agora, graças a deus, três dias depois começaram as manifestações de rua e eu falei: “Então não preciso mais sair”.

– Tu é anarquista?

Eu não tenho lado político. O mais próximo do que se pode me chamar é anarquista. Mas eu não sou anarquista. As pessoas acham que eu sou de esquerda porque eu perdi a cidadania na época do Médici, fui pra cadeia – violação à Lei de Segurança Nacional. “Você é de esquerda”, não. “Ah, mas você foi presa na época da ditadura”. Eu não sou de direita, nem de esquerda, talvez eu seja de banda. Porque eu não acredito, nunca acreditei em ideal fora do coração. Eu só acredito em ideal no coração. Quando sai do coração e vem pra mente e vira uma bandeira, fudeu tudo. Seja comunismo, seja nazismo, seja PT, seja a puta que pariu… Porque de coração eu tenho que saber que eu não posso puxar teu tapete. De coração eu tenho que saber que eu não posso te explorar. De coração, de coração, de coração. De coração eu tenho que saber que eu não posso deixar você ignorante, que se eu tiver algum caminho pra alguma coisa eu tenho a obrigação de te contar. De coração. Saiu do coração, meu amor, nunca funcionou. Nunca! Meu ex-marido Sacha, falou assim: “Elke, você tem um carma”. Eu falei “eu tenho vários, mas a qual que você se refere?” E ele disse “você nasceu em Leningrado, e vai morrer em ‘Lulagrado’”. Que horror, Deus do céu, eu mereço. Eu tive que ver a dona Dilma na Europa ensinando a Angela Merkel a governar, gente.

– O que tu achou disso?

Eu fiquei morrendo de vergonha.

– O que tu acha da Angela Merkel?

Não que eu ame a Angela Merkel, entende? Não é minha paixão, mas, porra! A mulher segura aquela porra com unhas e dentes e aí vem uma PAVERNI da América do Sul, onde não tem educação, onde estamos importando pedreiros, onde não temos médicos, onde não temos merda no cu pra cagar, onde somos roubados, e ela vem querer ensinar pra Angela Merkel a governar? Ai, ai, ai… Não. Gente, o que é isso? A que ponto nós chegamos?

– Tu é contra o atual governo brasileiro?

O último governo que eu gostei foi do Jânio Quadros. Foi triste ele ter que sair, a primeira coisa que Jânio fez quando foi presidente da república foi devolver terra pra índio. Índio só tem terra por causa de Jânio Quadros. Segunda coisa foi botar embaixador brasileiro pra nos representar lá fora. Primeiro mexeu com latifúndio, segundo com os racistas. Terceiro, foi pra Cuba, deixou bem claro que não era comunista, mas que queria que o Brasil fosse livre pra negociar com quem quisesse, inclusive URSS e Cuba, e que ele não ia participar de embargo de porra nenhuma e condecorou Fidel e Che. Deixando bem claro que o Brasil era livre. Livre? (Risos). No fundo realmente, meu amor, a única liberdade que todos têm, além de países, talvez a Mongólia seja livre, a Mongólia é. A única liberdade que nós temos é a de escolher a prisão que a gente quer ficar.

– Como foi ficar presa durante a ditadura?

Fiquei presa seis dias. Foi ótimo (Risos). Foi mesmo. Olha, eu sou madrinha dos leprosos, dos loucos de hospício, dos gays, dos presidiários e dos lixeiros de Minas. Uma época, eu ia muito em um hospício, inclusive fui muito amiga de Nise da Silveira – doutora Nise, alagoana, primeira psiquiatra mulher, era sujeito homem, tinha muita coragem. Se formou em 1934 e acabou com o choque elétrico, com drogas para os loucos, ficou amiga de Jung, e eu tive o privilégio de ser amiga dela. E os loucos sempre gostavam de mim, mas em um dos hospícios tinha um louco que não me suportava. Olhava pra mim, baixava a cabeça e saía de perto. Eu vi que ele não tinha nada de louco, ele incomodava muito a família e então prenderam ele no hospício e lá ele começou a incomodar mais. Davam muita droga, muito choque elétrico, pra amansar ele, mas não tinha efeito. Ele era muito forte física e espiritualmente. Então botavam ele na solitária. Um dia eu passei na frente da solitária e falei assim: “Domingos, vim aqui conversar com você. Olha pra mim, poxa. Não é melhor você amansar um pouco? Do jeito que você é as pessoas ficam muito incomodadas e acabam te machucando, te dando drogas, choque elétrico, te botam atrás dessas grades. Você não acha muito chato viver tua vida inteira atrás dessas grades?”. Então ele me olhou, veio até mim [Elke levanta da mesa e grita]; “Quem é você pra me dizer o que eu tenho que fazer, hein?! Depois, é uma questão de perspectiva, meu bem, eu também estou te vendo atrás das grades!” Sentou [ela senta], baixou o olho e nunca mais olhou na minha cara. Peguei meu rabo, botei entre as pernas e fui pra casa ficar digerindo aquilo. Ele era bem mais livre que eu, não fazia concessões. Quando fui presa eu falei: ah, é só um prédio. É só um prédio.

– Ser livre é uma coisa que incomoda?

Não, porque ser livre é um trabalho de muitas gerações, não incomoda absolutamente. Mas nós não estamos prontos para isso. A gente tem liberdade de escolher a prisão que a gente quer ficar, tem gente que é até escravo da liberdade, procura tanto a liberdade que fica escravo dela.

– O que tu pensa sobre a criminalização das drogas?

Sinceramente, não sei qual é a solução. Agora, uma coisa eu sei, as campanhas que se faz são completamente equivocadas, as pessoas não divulgam que a droga é gostosa. Se tua vida for preenchida de certas coisas, você não vai precisar da droga, ou você vai usar a droga para encontro ou para ritual. Entende? Cada droga preenche alguma coisa que você não tem. Por exemplo, maconha é relaxante. Eu fumando maconha – já fumei muitas vezes -, durmo, porque eu já sou relaxada, não é algo de que eu precise. A cocaína é uma droga de poder, dá a sensação de que você é poderosíssimo. Uma vez em Nova York eu estava numa festa, passou a bandeja, falei que não ia querer. Não, me disseram, cheira porque se não você vai ser execrada. Eu cheirei, meu amor, eu fiquei tão brilhante, tão poderosa que comecei a contar a história do Brasil de 22 de abril de 1500 até então, mil novecentos e oitenta e pouco, o pessoal parou de dançar pra ouvir a história do Brasil, e só tinha três brasileiros. Eu não preciso dessa sensação de poder, mas tem gente que se sente uma merda tão grande, que precisa dessa sensação. É como botar o pau na mesa: eu sou mais do que você, então você vai ter que me engolir. E o que é o máximo hoje em dia, não é o poder? Então pra você tirar a cocaína de uma pessoa você tem que educá-la de um outro jeito, não dizer que o máximo é o poder. Eu também fumei crack, o crack é uma euforia, eu não preciso, mas criança de rua não precisa? Precisa, amor. Pra você tirar uma pessoa do crack, além do problema físico, você tem que dar uma coisa mais gostosa pra ela. E outra coisa, droga não é pra fuga, é pra encontro. A minha geração tomou drogas pra autoconhecimento, agora eu não vejo mais gente tomando droga pra autoconhecimento, eu só vejo ou pra curtir, ou pra fugir. O poder é a pior droga, e ninguém persegue o poder. Quem matou mais, a cocaína ou Medellín? Foi Medellín, não é? O que você tem que fazer? Educar bem as crianças. Eu tive consciência plena, não fiz filho porque eu não sei educar uma criança e porque não posso ter âncoras, filhos são âncoras. Inclusive fiz abortos. Sem a menor culpa, porque, puta que pariu, eu não saberia educar uma criança. Quando você fizer um filho, você tem que estar consciente de que você está dando a vida e está dando a morte.

– Os teus abortos foram públicos. Isso nunca foi um arrependimento?

Não, quanto mais velha eu fico, mais eu acho que acertei. Depois, temos 7 bilhões de pessoas no mundo e 1 bilhão e 200 milhões no perrengue. Eu tenho muitos deuses, sou politeísta. Tem uma frase do Álvaro de Campos que eu acho que foi feita pra mim: “Ergo em cada canto de minha alma um altar a um deus diferente”. Eu vejo que as pessoas têm uma ideia muito de gente de deus, “deus é fiel”. Fiel? Fiel é um adjetivo que fizeram pra gente, deus não cabe em um adjetivo que fizeram pra gente. Vai se fuder, deus é fiel. “Deus é bom”, não cabe. Não é. Deus é tsunami. Deus é geleira despencando, deus é tempestade de neve, deus é tempestade de areia. As religiões nos atrapalharam muito. O que essas religiões fizeram? Fora o budismo. O cristianismo, eu adoro Cristo, mas Cristo só trata do homem. E a floresta, que é nossa irmã? E a pedra, que é nossa irmã? E o cavalo? E o rato? E o vírus da Aids? E o tubarão? São todos nossos irmãos. Então, na realidade o que nós fizemos? Botamos um monte de coisa pro homem fazer e esquecemos do tempo em que a terra era sagrada, do tempo em que a floresta era sagrada. Você pedia licença para tirar uma folha, nos tempos em que o mar era sagrado. Para os gregos, era Poseidon, para os romanos, Netuno, para os africanos, Iemanjá, e você não poluía o mar, né? No tempo em que o raio era sagrado, para os africanos, Iansã, o trovão, Xangô, na hora em que a deusa raia e o deus trovão se encontram tem a trepada do céu com a terra, e aí tem o orgasmo que é chuva e a terra germina. Isso é sagrado. Agora nós… no sábado não pode fazer isso, porque segunda não sei o quê, meu deus do céu! Esquecemos a mãe natureza e essa profanação, gente?

– Tu tem uma religiosidade própria, sem seguir nenhuma filosofia?

Religar, a vida é sagrada. E ninguém tá tratando a vida como sagrada. Qual é a proposta? Casar, ter filho, ganhar dinheiro, deus é o dinheiro. Antigamente, Cronos na Grécia era o tempo, por isso falamos “cronometragem”, entre os africanos era Ludumaré, tão reverenciado que nem o nome diziam. Aí chega o americano e diz “Time is Money”. E o que fizeram? Não usam mais o tempo para ser, só para ter. Ter não é ruim, não, mas você usar seu tempo todo para ter?

– Tem uma frase interessante tua, “a moral não está no meio das pernas”. Tu acha que a sexualidade deveria ser tratada de outra maneira?

Eu nunca fui obediente, mas na minha geração você não podia trepar sem casar. Eu nunca fui mulher, então não tive esse problema, trepei e pronto. Só fazem com você o que você permite. Tem um texto que eu gosto muito, que eu faço no meu espetáculo, de Étienne de la Boétie: “Gostaria de entender, gostaria apenas de entender como é que pode ser que tantos homens, tantas cidades, tantos países suportem, às vezes, uma tirania que tem apenas o poder que eles próprios lhe dão. O que faz com que uma nação trate as outras como escrava e as prive de sua liberdade? Será que não sabem que não é preciso combater essa tirania? Que não é preciso anulá-la, porque ela se anula a si própria. Basta que não se consinta em servi-la. Se nada se dá aos tiranos, se ninguém lhes obedece, sem lutar, sem golpear, eles ficam nus, ficam feridos e não são mais nada, são como o galho que se torna seco quando a raiz não tem nem umidade nem alimento. Decidam não mais servir e estarão livres. Não mais o sustentem e verão como o grande colosso de quem se subtraiu a base pode desmanchar-se com seu próprio peso e desmoronar.” 1460 – Étienne de la Boétie. Só não obedecer, fácil.

– Como Gandhi?

Como Gandhi, como Sócrates, como os bolivianos.

– Bolivianos da geração Morales?

Antes e em Morales. Ele não é ditador, é um índio que quer proteger sua raça. O índio boliviano é o povo mais ético e honrado do mundo, junto com o Japão. Mas eu admiro mais o índio boliviano, porque ser ético e honrado sem quase nenhum dinheiro é mais difícil. Uma vez eu cheguei para uma senhora da Bolívia, índia, né? Porque o branco boliviano é estragado. Eu cheguei para uma mulher lá e falei, “como vocês bolivianos são diferentes”. Ela falou, “como assim?”. Ela tinha dois dentes na boca, pobre de marré deci. Eu falei o seguinte, “eu sei que vocês tiveram ditadores, mas do jeito que o ditador sobe, vocês fazem huelga general, nem mosquito voa, e vocês só voltam a trabalhar quando o ditador caiu”. Eu falei, “vocês não deixam a doença se instalar”. Por exemplo, eu nasci na Rússia: 70 anos de ditadura, minha mãe era alemã: 20 de ditadura, sou brasileira: 20 anos de ditadura, fora as que tiveram antes, Cuba: 40 anos de ditadura, Argentina: 20 anos de ditadura, e Chile… E 33 anos de um homem só no Paraguai. E a gente que teve ditadura fica “ah, o que a ditadura fez… ah…”. Eu não reclamo, porque eu sou responsável, só fazem comigo o que eu permito, então quando falam pra mim “ah, e a ditadura?”. “Ótima, eu permiti”. Então falei pra ela, “vocês são o único povo que não permitem isso”. Ela falou, “pois é, nós somos o povo mais pobre da América Latina, mas nós nunca remamos a favor da corrente, e a senhora há de entender, tem povos que ainda não são povos, ainda são gado”. Eu fiz mó três vezes: nasci na Rússia, móooo, mãe alemã, móoooo, sou brasileira móoooo. Eu cheguei à perfeição, três vezes gado! Não é uma beleza? Que maravilha aquela mulher, que lição!

– Como tu definiria Elke Maravilha?

Como nós todos, não temos definição. Somos tudo, somos santos e demônios, somos bonitos, somos feios, somos grandes, somos minhocas. Nesse ponto é muito bom ter nascido russa. Freud dizia, o russo e o irlandês são os únicos povos que não precisam de psicanálise porque não têm medo de mostrar sua sombra. Não têm medo de dizer “olha eu sou mau e eu sou bom”, não tem essa de ficar camuflando nada. Porque os outros povos têm medo, só querem mostrar o lado positivo. Eu lembro de quando era pequena, meu pai falou, “filha, o que você estudou hoje?”. “Estudei uma coisa maravilhosa, que o povo brasileiro não é um povo violento”. Ele perguntou,” onde é que você ouviu essa bobagem?”. “A professora que falou”. “A professora fala qualquer merda, você acredita?” Eu falei, “tá escrito aqui, olha pai”. Ele disse, “minha filha, o papel é muito paciente, você escreve qualquer merda nele, ele aceita. Pergunta amanhã se o que fizeram com os negros não foi violência, pergunta amanhã sobre o que fizeram com os índios, quando o português chegou tinha 22 milhões, agora tem uns 400 mil (agora então tem uns 100 mil), cadê? Pergunta se morrer na fila do INPS (na época era INPS) não é violência? Pergunta se deixar uma pessoa analfabeta não é violência? Pergunta!” E eu comecei a perguntar. Aí virei uma pentelha.

*Em alguns textos do jornal Tabaré, optamos intencionalmente pela concordância de acordo com a variação linguística porto-alegrense, concordando a segunda pessoa do singular com o verbo da terceira. Nos inspiramos em teóricos linguistas que defendem que a língua deve se adaptar às características locais dos que a utilizam, valorizando as diferenças desse país continental.

Formatar

Pego o coração guardado e tiro do lugar. Parece maior, inflado, entusiasmado. Amasso. Vou contorcendo cada parte do músculo. Formato. Faço com que o coração se encaixe. Fica do tamanho ideal. Monto as curvas necessárias para a forma.
O coração entra no devido lugar.
Dói. Dor de aperto, um desconforto. O coração salta para fora involuntariamente, tremendo para bater seu ritmo. Perco a respiração e o sentido. O coração não cabe. Não é possível escolher o molde.

Jasmim na minha janela

Há anos não redijo linhas honestas. Tampouco são muito úteis estas que agora aparecem no cursor, ainda assim. Ainda assim gostaria de escrever sobre esta madrugada. Esta única madrugada, esta madrugada marcante, que talvez amanhã eu já nem lembre, mas que no momento atual em que meus dedos brincam no teclado, existe potente, avassaladora.
A madrugada é a parte mais Che Guevara dos sonhos, disse o cantor uruguaio. A madrugada é revolucionária, provocadora, transgressora. A madrugada mata e morre por causas que ela mesma justifica. Esta noite não morri e também não matei. E ainda assim, algo está acabado.
O cheiro de jasmim me espanta. A janela aberta e a noite densa. O cheio de jasmim penetra e me propõe um diálogo. Ele sobe do jardim tantos metros abaixo, sobe com o vento ou sobe porque é de sua natureza subir. Aqui na minha janela aberta, a única janela aberta entre tantos prédios e condomínios, é madrugada e o jasmim é um mistério. Não apenas pela capacidade de subir tantos andares, mas porque todo jasmim morreu no dia 2 de maio. Nesse dia o perfume parou de existir. Nesse dia eu parei de procurar sinais na madrugada.
Trabalhei como qualquer um e isso me fez aguentar as noites. Esta noite que se transforma em dia agora ilustra minha janela. E é exatamente como quando eu tinha apenas algo como quatorze ou quinze anos. É exatamente como quando eu passava a noite lendo, porque o livro era muito bom ou porque a companhia de algum personagem era tão importante que a noite também se transformava nessa madrugada que vira dia. E algumas vezes eu olhava pela janela e sentia um prazer injustificável de estar acordada entre tanta gente apagada, entre tantos edifícios. Era muito prazeroso ver o dia nascer enquanto algumas pessoas eram obrigadas a dormir para acordar e trabalhar. Era prazeroso ser o oposto disso tudo. E hoje eu senti novamente isso. Essa parte dos sonhos. Por mais que o trabalho tivesse me forçado a esse estado trêmulo de fome e sono e cansaço e incapacidade de dormir.
Os pássaros cantam com força e a chuva é leve, mas persistente. Já não sinto o cheiro de jasmim, foi um diálogo curto. Uma passagem do dia 2 de maio por este quarto. Porque eu chorei e minhas lágrimas são justificadas. Porque hoje é o fim de um ciclo, de minha juventude, de tudo que eu chamo de vida. Hoje termina e o cheiro de jasmim comprova isso. Esta madrugada nublada com um céu quase rosa me confirma. Hoje é o fim de um sonho intenso que tive.